terça-feira, agosto 14, 2012

O Fado das Sereias

Ilustração de Christian Birmingham, The Litle Mermaid (edição inglesa do conto de Andersen, 2009)


“Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar.
A filha mais nova era especial, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia”.

Assim se inicia, na atmosfera melancólica do Romantismo, um dos primeiros contos de Hans Christian Andersen (1836), apropriadamente intitulado A Pequena Sereia (ou, na nossa típica diminutivo-mania, Sereiazinha). Arquétipo bondoso das antigas beldades mitológicas híbridas, meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora.

Estudo em aguarela para ilustração dos Contos de Andersen. Walter Crane, entre 1870 e 1880 (Victoria & Albert Museum, Londres)

 As Perigosas Mulheres Voadoras

A bem da verdade, as primeiras sereias - sirenas -, popularizadas na Grécia Antiga, não eram particularmente atraentes. Deviam mesmo ser evitadas. 

Eternizadas por Homero (o grande educador da Grécia, enunciou Platão) e Virgílio, os seus leitores ficaram a saber que estas invulgares criaturas habitavam um punhado de idílicas ilhas mediterrânicas, próximas do Estreito de Messina entre a Sicília e a Península Itálica.





A estância de Positano defronte dos lendários ilhéus de Sirenuse, derradeira morada das sereias, que ainda no ano passado estiveram à venda por 195 milhões de euros (3 villas com 19 quartos, duas piscinas privadas e um heliporto à disposição de um qualquer Ronaldo)
Porém, estas ensolaradas ilhotas paradisíacas beijadas pelo mar cálido e abençoadas pelo fértil solo vulcânico guardavam histórias inquietantes.
As maléficas habitantes notabilizavam-se por irresistíveis dotes musicais que atormentavam os navegadores desprevenidos. 

Outro pormenor sobressaía dessas ilhas: estavam juncadas de ossadas humanas, restos das vítimas arrastadas pelas vozes sedutoras das sereias que os devoraram. Um perigo difícil de evitar, pois quem pode escapar àquilo que deseja?


A morada das sereias, tornada em formidável obstáculo marítimo, deixou o seu legado até hoje no diminuto arquipélago que ostenta a sua origem mitológica: os ilhéus Sirenusas (ou Galli) ao largo do Sul de Itália, de onde foram desalojadas pelas hordas de turistas anualmente despejadas na vizinha costa de Amalfi, Positano e Capri.
 

Sereia e leões no Parque Sacro Bosco ou Bosco dei Mostri em Bomarzo, final do séc. XVI (Viterbo, Itália)
A paternidade das sereias sempre foi problemática e diversamente atribuída. Uns queriam que fosse Forcis, divindade marinha pouco simpática com os navegadores - representava os perigos das profundezas marítimas -, ou, na versão mais bem sucedida, à união do deus-rio Aqueloo e da ninfa Calíope. Outros ainda afirmavam terem as temíveis sereias brotado do próprio sangue derramado por Aqueloo após a sua derrota às mãos de Hércules. A genealogia não ajuda, pela falta de clareza dos seus progenitores.





Cílice em cerâmica do séc. VI a.C. (Walters Art Museum, Baltimore)

Quanto ao pormenor genético que originalmente as distinguia, as asas - ou o corpo - de ave, os autores mais antigos também não concordam.

Segundo Ovídio (Metamorfoses), as sereias teriam ganho asas em resposta à súplica aos deuses para procurarem a bela Perséfone (romana Prosérpina), que acompanhavam quando esta foi raptada pelo deus do infra-mundo e governante do mundo dos mortos Hades (romano Plutão). Outra versão estabelecia que se tratava de uma punição infligida pela deusa Deméter (romana Ceres) por não terem impedido o rapto da jovem Proserpina sua filha.



Ulisses sendo atraído pelas sirenes, ou mulheres-aves, segundo Pietro Aquila, Monstra maris Siculi frustra dulcedine cantus (entre 1675 e 1690) Biblioteca Nacional Digital

O que é certo é que as línguas nórdicas retiveram a distinção entre as sereias (sirens) originais e as posteriores mutações mitológicas em donzelas do mar (inglês mermaid ou alemão seejungfrau, por ex.), literalmente.

Já para o comum homem medieval, tudo o que viesse à rede com tronco de mulher e cauda de peixe só podia ser sereia, sem penas.


De Aves a Peixes
A entrada das sereias no mundo marinho deve-se a Ulisses, o bravo rei de Ítaca que , na noite dos tempos, teria fundado Lisboa e ainda desnorteado um bando de sirenas a tal ponto que estas, de tão desesperadas, se lançaram no mar.

Este episódio, seguramente o mais célebre da longa vida das sereias, foi amplamente ilustrado na Grécia Antiga, demonstrando o estratagema eficaz com que se anulou o canto funesto das mulheres-aves: Ulisses tapou os ouvidos com cera de mel e fez-se amarrar ao mastro do seu navio  para atravessar a melodia mortal. 

Ulisses e as sereias. Vaso ateniense, séc. V a.C. (The British Museum, Londres)

Com o passar dos séculos e a mudança das mentalidades ocidentais, o mito das sereias evoluiu.

Eminentemente sedutoras, povoaram o recatado imaginário medieval nas páginas de inúmeros manuscritos pacientemente compilados (são mesmo muito sucintamente mencionadas no Nome da Rosa de Umberto Eco, entre os "perigosos" exemplares da sinistra abadia). Provavelmente o mais conhecido  bestiário terá sido o «Liber Monstrorum de Diversis Generibus», do séc. VIII (edição italiana online). Desta obra exaustiva das espécies bizarras, agrupando seres reais e imaginários, destaca-se a sereia.

Embora esporadicamente representada na Antiguidade na sua configuração marinha, a sereia tal como a conhecemos hoje só adquiriu definitivamente a emblemática cauda de peixe na Idade Média.

Sereia com espelho, instrumento de vaidade e da ilusão. Manuscrito inglês, séc. XV. Daqui

A ascensão do Catolicismo ajudou a transformar estas criaturas em fruto proibido, cuja beldade enganadora, símbolo da tentação, constituiu uma apropriada representação do Mal aos olhos da Igreja. As sereias notabilizam-se como derradeira personificação feminina da volúpia e símbolo do pecado.



A viagem de São Brandão, c. 1460, e Konrad von Megenberg, «Buch der Natur», cópia de 1460 sobre o original de meados do séc. XIV (ambas na Biblioteca da Universidade de Heidelberg)

No Antigo Testamento, o profeta Isaías anuncia a dança das sereias nos templos do prazer de Babilónia, após a destruição desta cidade da perdição (Isaías, 13,21).


A dimensão da perdição nas sereias não se perde com o Renascimento. O tratadista milanês Andrea Alciato, pioneiro no género literário dos emblemas morais, incluiu as sereias como símbolos da impudícia e da lascívia (emblema 115 da edição de 1591).

O fascínio cresceu lentamente na Idade Média e conheceu o auge da sua difusão no Renascimento. Na História da Arte europeia, a perigosa beleza cativante destas mulheres aquáticas ganhou expressão notável como ícone da cultura popular medieval - apenas rivalizada pelo dragão.

De facto, “os animais fantásticos mais representados no Românico Português são os dragões e as sereias”.


Jacob Meidenbach, Hortus Sanitatis (1491)


Episódio da Eneida de Virgílio; a deusa Cibele intercede em favor dos troianos cercados em Itália, transformando os seus navios em sereias e assim salvá-los da destruição iminente pelos romanos (edição alemã, 1517)

Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum (1570)



A invenção da imprensa e o desenvolvimento da cartografia permitiram divulgar massivamente as imagens revistas e actualizadas das sereias "modernas".

Na primeira metade do séc. XVI, o naturalista suíço Conrad Gesner e o cirurgião francês Ambroise Paré estiveram entre os primeiros autores de referência.

Fixaram, respectivamente, no Vingt cinquième livre traitant des monstres et prodiges (Paris, 1573; edição online de 1585) e no Historiae Animalium (Zurich, 1551-58), algumas das imagens mais populares destes seres dissimulados.

Assim, as sereias acabaram por se multiplicar, aplicadas a uma imensidade de suportes e recantos arquitecturais, imiscuindo-se e animando uma profusão de espaços, incluindo os insuspeitos templos religiosos.

Um dos exemplos mais surpreendentes encontrou lugar destacado na remota igreja de Saint Senara, em Zennor, na Cornualha. A cadeira é obviamente antiga, mas a lenda da Sereia de Zennor apenas surgiu no saudosista século XIX. Uma bela desconhecida chegou um dia para ouvir - numa curiosa inversão de papéis - um virtuoso cantor do coro da igreja local. Ao fim de algumas visitas dominicais, atraíu-o consigo para o mar. Nunca mais foram vistos. Mas dizem que ainda hoje em Mermaid Cove (Enseada da Sereia), se escutarmos com atenção, podemos ouvir nas noites de Verão o cântico dos amantes por entre o marulhar das ondas.




Cadeira da Sereia de Zennor. Igreja de Saint Senara, Cornualha (foto de Tom Oates)

Dir-se-ia que as sereias encontraram novas casas, numa ironia histórica, em coabitação com os mesmos religiosos que as definiam como obscenas e traiçoeiras.



Cadeiral, c. 1487. Colegiada de Sant'Orso, Aosta (Itália) (daqui)


Igualmente companheiras de guerreiros, ou não fossem elas mesmas temíveis adversárias.


Borguinhota de parada (Filippo Negroli, 1543). Metropolitan Museum, Nova Iorque

No fundo, o proibido sempre atrai. Nestes seres confluem o sagrado e o profano, erudito e popular, o quotidiano e a lenda, numa série de referências históricas ancestrais que não se confinam ao etéreo imaginário. Lá que elas existiam existiam, pois... 

Tanto assim foi que algumas representantes desta espécie exótica ganharam dimensão eterna. Pelos emarados caminhos míticos do Velho Mundo, dois espécimens de importância singular sobressaíram como protectoras dos humanos.

Brasão da cidade de Varsóvia, ostentando a sua protectora marinha
A sereia-guerreira nórdica, símbolo heráldico da cidade de Varsóvia - a Warszawska Syrenka -, vinda das profundezas do Mar Báltico (acompanhada pela sua irmã que decidiu acomodar-se no famoso rochedo dinamarquês onde ainda hoje a podemos contemplar), e a bizarra lenda trágico-amorosa de Mélusine, a fada-sereia fundadora e protectora da ilustre Casa de Lusignan, no Poitou (centro-Oeste da França), conciliando diversos elementos, a Água enquanto sereia, a Terra, enquanto serpente e o Ar enquanto ave, compondo um medonho animal compósito. Mélusine sofre por amor, após o seu marido ter descoberto a sua natureza insuspeita.

Desde então vagueia sob a forma de criatura fantástica, regressando apenas de noite para amamentar os seus filhos e sobrevoa o castelo de Lusignan nas vésperas de acontecimentos importantes. A lenda, fértil em leituras subliminares, tal como as sereias, depressa ultrapassou fronteiras e rapidamente se adaptou a outras línguas através da Europa.

A fada-sereia Mélusine, uma das lendas mais bem sucedidas da França medieval, da autoria de Jean d'Arras (1393).
 Condenada a manter em segredo dos humanos a maldição da sua metamorfose em ser alado com cauda de peixe, até ao fim da sua vida.  


Brasão dos senhores do castelo de Ainay-le-Vieil, ladeado por duas sereias, evocando a lenda de Mélusine, séc. XVI.
 Pormenor da lareira do castelo, no vale do Loire


Baixo-relevo nas ruínas do castelo de Lusignan, Poitou

A improvável ligação entre a linhagem Lusignan e a Starbucks ocorreu em 1971, quando a empresa multinacional de cafés norte-americana adoptou o famoso símbolo da sereia renascentista, progressivamente estilizado.




Entre nós, nação bastante marítima, surgem retratadas numa imensidade de suportes surpreendente. Não foi o caso, porém, da literatura. Apenas Camões (Canto X, estâncias 5 e 48) alude à "voz angélica das sirenas", cujo canto deveria louvar então os feitos marítimos dos portugueses.

Letra "s" na Grammatica da Lingua Portuguesa de João de Barros (1540)

Tanto quanto sabemos, os portugueses não embarcaram nessas histórias. Estarim provavelmente demasiado entretidos com outras arrebatadoras realidades exóticas que desfilaram perante os seus olhos desde a Guiné ao Brasil, à Índia e ao sudeste asiático, até alturas do Japão.

Não faltam porém, diversos exemplos evocativos das misteriosas sereias.

Lá estão entre os dispersos frescos zoomórficos das casas pintadas, em Évora (actualmente sede da Fundação Eugénio de Almeida), da primeira metade de Quinhentos.
Frescos das Casas pintadas, Évora, primeira metade de Quinhentos (actual sede da Fundação Eugénio de Almeida)

No Palácio Nacional de Sintra, emprestam o nome à Sala das Sereias, ou da Galé, representadas nos paineis de madeira que decoram o tecto da antiga  residência régia de Verão.

Sala das Sereias, ou da Galé, final do séc. XVII (Palácio Nacional de Sintra)

Mas também nos templos religiosos, ocupam lugares destacados nos cadeirais onde se amparavam os monges, no ornamento de altares, capitéis e portais de igrejas e conventos.

Aqui insistem em figurar, por exemplo, num capitel da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Elvas, erguendo a cruz de Cristo,...


...às mais enobrecidas que suportam a esfera armilar e o escudo de Portugal, símbolos régios, numa das mísulas do Convento de Cristo.


Também as famílias mais abastadas, como os Portocarrero, no Porto, as colocaram em evidência como monumentais guardiãs no portal do Palácio das Sereias, palacete dos meados do séc. XVIII.

Daqui
Mais a norte, no Distrito de Bragança, as sereias figuram desde Setecentos na Fonte com o seu nome.

Fonte das Sereias, em Carrazeda de Ansiães, séc. XVIII

As lendárias criaturas aquáticas não poderiam estar muito afastadas do seu elemento. Protegidas no interior da igreja, ganham relevo adicional numa cidade marítima como Vila do Conde. Como que a redimir-se da sua natureza maléfica, surgem associadas desta vez à água benta.
Pia baptismal, Igreja Matriz de Póvoa de Varzim, meados do séc. XVIII
Atravessando o Atlântico, instalaram-se desde 1779 como ornamento nos altares da capela do Santíssimo Sacramento, figurando no conjunto monumental do Convento de Santo Antonio e da Igreja de São Francisco em João Pessoa, capital da Paraíba, cidade desenvolvida entre o rio e o mar .
Sereia oitocentista nos altares da Igreja de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba (foto Leonardo de Oliveira)
Encontros imediatos aquáticos

Das mais variadas latitudes surgiram relatos de encontros imediatos com as sereias. Alguns deixaram - insistiam os seus autores - testemunhos inequívocos da sua existência. As terras e mares distantes revelavam aos poucos os seus habitantes mais originais aos exploradores. 

Gravura de Theodor de Bry (1628)
(Centre for Newfoundland Studies - Universidade de Newfoundland, Terra Nova, Canadá)

No prefácio ao relato do navegador Richard WhitbourneA Discourse and Discovery of New-Found-Land (1620), dá conta de um encontro em 1610 no porto de São João da Terra Nova, futuro Canadá. 

Louis Renard, «Poissons, Ecrevisses et Crabes» (1718) (Universidade de Glasgow)
Em 1718, o francês Louis Renard publicou em Amsterdam uma colecção ilustrada de desenhos científicos intitulada Poissons, Ecrevisses et Crabes: de diverses couleurs et figures extraordinaires, que l'on trouve autour des Isles Moluques, et sur les côtes des Terres Australes, onde incluiu um exemplar de sereia, capturada próximo de Amboino, no arquipélago das Molucas (actual Indonésia) que sobreviveu quatro dias e sete horas numa bacia com água. O testemunho foi obtido, juntamente com desenhos originais entre 1705 e 1715, de funcionários da Companhia das Índias Orientais holandesa.

Sereia nipónica, 1805. Waseda University Theatre Museum (Tóquio)

Décadas mais tarde, em 1805, e mais a Oriente, uma outra sereia, foi alegadamente recolhida na Baía de Toyama. Bem menos atraente, de acordo com o texto, tal criatura mediria 10,6 metros.

Se a imaginação humana não conhece limites, as sereias foram um constante desafio. Afinal, "os bichos também se inventam, de acordo com os sonhos mais caros”, dizia a Lhama Bailarina na  curiosa Zoologia Bizarra do poeta carioca Ferreira Gullar (Prémio Camões 2010).

Desenganem-se os que crêem que as sereias levam vida fácil. Para chegarem até hoje, terão sobrevivido a oligarquias, monarquias, repúblicas, às grandes revoluções e às guerras mundiais.

Contra todas as probabilidades, atormentadas pelos deuses antigos, superadas por Orfeu e Ulisses, depois condenadas pela moral cristã, ultrapassadas e dissecadas pela ciência das Luzes, as sereias sobreviveram. Não consta que algum especialista se tenha debruçado sobre os efeitos das alterações climácticas  ou das marés negras nestes seres delicados. A prova do seu sucesso: incorporam as suas histórias no mundo actual, principalmente na arte.
"Sereia" como atracção de feira de bizarrias japonesa, séc. XIX (daqui)

Os séculos XVIII e XIX são já pouco dignos para com as criaturas marinhas. O espectáculo das feiras ambulantes de bizarrias no Japão (misemono), com digressões pelos Estados Unidos e na Europa em respectivos freak shows, eram habitualmente protagonizados por sereias, supostamente originárias do Japão e das Índias Orientais.  De um dia para o outro, multiplicaram-se os "achados" de "sereias" por pescadores nipónicos. Alguns exemplares mais evoluídos possuíam, pois claro, o dom da fala.

Apesar da sua malícia, ou precisamente devido a ela, não deixaram de ser apreciadas ao longo da História. Porém, chegado o século XIX, a época Romântica deu uma contribuição decisiva na transformação das sereias em criaturas adoráveis. Continuaram a fascinar os mortais, cada vez mais jovens e já sem malícia.


Ilustração de Edmund Dulac (edição inglesa dos Contos de Andersen de 1911)


Mermaid, John William Waterhouse (1900) (Royal Academy of Arts, Londres)

Den lille havfrue (a Pequena Sereia), de Andersen, por Edvard Eriksen, 1913 (Copenhaga)

Disney Animation Studios (1989, relançado em 1997)

O século XX viu nelas uma potencial fonte de receitas muito apreciável e assim se conciliou o útil com o agradável. Até surgir o momento da "verdade". É que o canto das sereias terá terminado recentemente.

O silêncio das sereias?



Tudo isto para colocar a questão transcendental: para onde foram as sereias? e porque nao ouvimos o canto delas?

Será que a moderna sociedade de ruídos e bombardeamentos audiovisuais abafou as celebradas criaturas misteriosas que outrora prosperavam nas imaginações enamoradas dos marinheiros e nas páginas de entusiásticos contadores de histórias, numa tradição milenar que remonta a Platão e que tentaram arrastar Ulisses, intrépido navegador e lendário fundador de Lisboa, para a sua perdição?

A questão secular ressurgiu em Maio passado, no país do costume. O canal Animal Planet, da Discovery Channel, apresentou "Mermaids: The Body Found", um documentário acerca da existência de sereias, carregado de efeitos especiais que se propõe retratar "um retrato bastante convincente da existência das sereias, da sua provável aparência e porque permanecem escondidas", nas suas próprias palavras. Em letrinhas minúsculas, adverte-se vaga e confusamente que o programa partiu de acontecimentos reais e de "teorias científicas". 

Este entusiasmo e as belas imagens geradas por computador foram o suficiente para criar a polémica. Conjecturando acerca de um hipotético estágio evolutivo apelidado de "símio aquático", as expectativas das mentes mais susceptíveis pareciam ter aqui o substrato de que necessitavam. Não terá sido grande ideia, dado que quase metade dos norte-americanos negam a Teoria da Evolução. Enquanto uns continuam a defender convictamente a existência de sereias, outros foram mais longe e apontaram provas arqueológicas do temível cefalópode gigante Kraken (que afinal não passam de vértebras de ictiossauro), equívoco prontamente desfeito pela National Geographic Society. 

A comunidade científica não tardou em questionar a "ciência" do documentário. As discussões incendiaram a internet e prosseguiram o tempo suficiente até perderem a novidade. Mas, perante a enxurrada de emails de cidadãos crédulos com que foi assediada, a própria administração oceanográfica norte-americana, NOAA (a NASA dos mares) viu-se forçada a emitir esta inédita, mas algo óbvia, declaração oficial à população: lamentamos, mas jamais foram encontradas evidências de humanóides aquáticos.
 

Resta o consolo de  vestir uma cauda de peixe, como a nadadora e modelo australiana Hannah Fraser, que, inspirada pelo filme Splash, mergulha nos mares para nadar com baleias, golfinhos e tubarões em defesa do oceano e dos ambientes marinhos.

Claro se torna ser impossível apagar estas Atlântidas literárias.  Nem as maiores montanhas de água, nos vastos e ainda muito pouco conhecidos oceanos, conseguem diluir o imaginário ancestral.


Mesmo submersas e silenciosas, as sereias permanecerão para sempre inspiradoras.

Para ver melhor:
A não perder, esta magnífica galeria fotográfica de sereias provenientes de monumentos e templos de toda a Europa.

Outra galeria de sereias em desenhos e iluminuras.

Ainda insatisfeitos? outra extraordinária compilação de sereias medievais.


Para saber mais:

Mitologia grega

Sereias gregas (no sítio do costume)

Sereias tal como as "conhecemos" (idem)

4 comentários:

Guilherme disse...

Delicada escrita. Pesquisa cuidadosa de imagens. Cheguei ao seu blog motivado pela audiência ontem do documentário do Animal Planet. Nada achei de interessante em outros sites e blogs que ultrapassem a polarização: "oh que legal!" ou "isso tudo é uma mentira deslavada desmentida pelas grandes agências norte-americanas". Você não teve pretensão de verdade e isso foi ótimo.

Cris NS disse...

Adorei este post.

Estava pesquisando sobre sereias e encontrei poucas referências realmente boas e completas como a sua (especialmente do século XVIII em diante).

Não vi o documentário do Animal Planet, mas eles gerarem esse tipo de polêmica não me surpreender.
Fizeram o mesmo há alguns anos com dragões.

Eu fui uma das tontas que acreditou, hahahahh... Depois eles foram forçados a desmentir... ou melhor, admitir que era apenas um documentário ficcional.

Gostei do blog, passarei a acompanhá-lo.

Joni Silva disse...

Excelente trabalho de pesquisa e reunião de imagens, citações e referências. Parabéns!

Joni Silva disse...

Simplesmente incrível essa coletânea! Estou iniciando um romance sobre o tema e me encantei com a riqueza e ao mesmo tempo objetividade. Multicultural, histórico e literário,BRAVO! Sobre as referências, podes disponibilizá-los por favor? Abraço e mais uma vez BRAVO!