terça-feira, junho 09, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (IV)

Desfecho e Consequências


Anthony Wingfield, A trve coppie of a discourse written by a gentleman, employed in the late voyage of Spaine and Portingale... (London, 1589). Exemplar na Kraus Collection of Sir Francis Drake, actualmente na Biblioteca do Congresso (Washington DC). Outro relato, em latim (na mesma colecção): Ephemeris expeditionis Norreysij & Draki in Lusitaniam (London, 1589)

Em Inglaterra, a Rainha Isabel não poupou Drake pelo fracasso da expedição, sobretudo pela incapacidade em forçar a barra do Tejo para se reunir às tropas de Norris. Em resultado, o famoso corsário e almirante inglês cumpriu um desterro da Corte isabelina - e dos mares - durante 6 longos anos. Drake comprometera o resultado da grande armada inglesa e mostrara indisciplina face às ordens da Rainha no cumprimento dos objectivos. Ele e Norris foram incapazes de se justificar perante o Conselho Privado da Rainha das acusações de desvio dos objectivos previstos em proveito próprio. A destruição dos navios sobreviventes da "Invencível" Armada refugiados sobretudo no porto de Santander não foi cumprida.

A expedição de 1589 poderia ter sido decisiva na Guerra Anglo-Espanhola. A reconquista de Lisboa teria obrigado Filipe II a desviar tropas de outras frentes de guerra e poderia ter levado À negociação de tréguas segundo condições inglesas. De posse desta importante base naval e centro marítimo, a Inglaterra beneficiaria da colaboração das forças navais portuguesas garantindo, a curto prazo, o domínio dos mares e ameaçando seriamente os circuitos comerciais transatlânticos da Monarquia Hispânica. Contudo, a falta de preparação das tropas e de material, aliados à dissociação de interesses da Coroa e dos particulares que ajudaram a financiar a expedição a Portugal, ficaram patentes os limites de acção do emergente poder naval inglês.

Para o fracassso contribuiram, para além das negligências individuais dos comandantes, as crónicas insuficiências logísticas comuns às armadas ingleses desse período. Criara-se um equilíbrio de forças momentâneo no Atlântico, pois a Espanha ainda recuperava do fracasso da "Invencível" Armada de 1588 e reconstruia as suas forças navais. A guerra no mar contra Filipe II recrudesceria na década seguinte sobretudo com recurso aos navios corsários navegando sob bandeira de D. António contra a marinha mercante ibérica. Mas o receio inglês de novas grandes armadas espanholas continuou tão vivo como em 1588.

A própria questão do fortíssimo antagonismo religioso entre Católicos e Protestantes havia sido correctamente previsto pelo líder espiritual da Revolta dos Países Baixos (Philippe Marnix de Sainte-Aldegonde), ao recusar o convite de D. António para integrar a expedição e estabelecer a liberdade de culto em Portugal, invocando as inevitáveis animosidades e fortes desconfianças dos católicos portugueses.



Isabel I de Inglaterra e Filipe II de Espanha (I de Portugal) protagonizaram uma escalada militar que culminou na Guerra Anglo-Espanhola. As armadas espanhola e inglesa defrontaram-se entre 1585 até à morte de ambos os monarcas. Embora a "Invencível" (ou Grande) Armada de 1588 tenha sofrido um sério revés, o poder naval espanhol conseguiu recuperar e reformar-se, prolongando a guerra no mar até ao início de Seiscentos. Pintura da rainha inglesa atribuída a George Gower, 1588 (National Portrait Gallery, Londres) e do monarca espanhol por Alonso Sánchez Coello, c.1570 (Pollok House, Glasgow)

Filipe II de Espanha (D. Filipe I de Portugal) manteve, através do Vice-Rei Alberto de Áustria, o controle firme de Lisboa e do território português. As grandes armadas espanholas mantiveram a Inglaterra em alerta mesmo após a derrota da "Invencível" Armada de 1588. O seu principal adversário português, D. António Prior do Crato perdeu todas as batalhas contra as forças espanholas, desde Alcântara (1580) até até à derradeira batalha de Lisboa (1589).

Numa das suas derradeiras cartas à Rainha Isabel I, D. António prometia não desistir de regressar a Portugal e procurou auxílio junto do Rei Henrique IV de França, mas sem sucesso pois não passou da fase de planeamento. A 26 de Agosto de 1595, dois dias antes da partida última expedição de Drake, D. António morreu em Paris na miséria. O seu conhecido e apoiante já idoso e apelidado pelos espanhóis de "Francisco Draque el viejo" morreria pouco tempo depois, em Janeiro de 1596 a bordo do seu navio no Mar das Caraíbas, onde iniciara a sua longa luta contra Espanha. Finalmente, no ano seguinte, o General Sir John Norris, último dos três protagonistas da expedição de 1589, já enfraquecido pela doença no regresso de Portugal, sucumbiu às velhas feridas de guerra na Irlanda.


Amigos de Peniche?

A história da expedição inglesa de 1589 padece ainda hoje de uma herança enganosa e redutora. Segundo alguns autores do séc. XX, a expressão popular amigos de Peniche deve a sua origem à falta de apoio dos ingleses no regresso de D. António a Portugal, numa acepção pejorativa de falsos amigos apenas interessados em saquear. Contudo, apesar de os ingleses terem retirado sem conseguirem de facto ajudar a causa de D. António, a origem da expressão não terá sido, até prova documental em contrário, contemporânea da expedição ou sequer relativa à mesma. Mais provavelmente, terá que ver com o desembarque das forças liberais em 1833 (aproveitando a fuga da guarnição do partido absolutista), consumado com actos de vandalismo e agressões a populares, atingindo sobretudo as igrejas, mutilando imagens e altares.


Fontes Publicadas

HAKLUYT, Richard, The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Navigations of the English Nation, London: The Hakluyt Society, vol. VII (London: 1907).

LIMA, Durval Pires de, "O ataque dos ingleses a Lisboa em 1589 contado por uma testemunha...", in Lisboa e seu Termo: Estudos e Documentos, Associação dos Arqueólogos Portugueses, vol. I (Lisboa: 1948).

Memorial de Pero Roiz Soares (1565-1628), publicado por M. Lopes de Almeida, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1963.

WERNHAM, Richard B. (ed.), The Expedition of Sir John Norris and Sir Francis Drake to Spain and Portugal in 1589, Aldershot: 1988.


Estudos Principais

CAEIRO, Francisco, O Arquiduque Alberto de Áustria, Vice-Rei e Inquisidor-mor de Portugal, Cardeal Legado do Papa, Governador e depois Soberano dos Países Baixos, Lisboa: edição do autor, 1961.

CASTRO, José de, O Prior do Crato, Lisboa, 1942.

MacCAFFREY, Wallace T., Elizabeth I: War and Politics, 1588-1603, Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1994 (2.ª ed.).

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, col. Batalhas de Portugal - 19, Lisboa: Tribuna da História, 2005.

VAZ, João Pedro e FONSECA, Luís Falcão da, "Sir Francis Drake and the «Poor King» D. António: the Portugal Voyage of 1589", in The British Historical Society of Portugal 23rd. Annual Report and Review 1996 (Lisbon, 1997), pp. 25-53.

domingo, março 08, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (III)

Parte III - Derrota e Desilusão

As últimas tropas inglesas que formavam a retaguarda em retirada de Lisboa, em que seguiu D. Manuel de Portugal (filho de D. António) e a cavalaria inglesa partiram na madrugada de 5 de Junho, quando já a vanguarda onde se encontrava D. António passava por Alcântara, cenário da derrota de 1580 frente às tropas espanholas que levou à tomada de Lisboa. A bom passo e por terrenos agrestes, fora dos caminhos mais percorridos devido ao fogo das galés espanholas que os bombardearam novamente, as forças inglesas dirigiram-se para Cascais onde chegaram na mesma noite. Desconfiado, o Capitão-geral da gente de guerra Conde de Fuentes atrasou a saída das tropas defensoras de Lisboa receando uma emboscada., mas envia umas companhias soltas de arcabuzeiros a cavalo e de ginetes (cavalaria ligeira) em perseguição fazendo algumas vítimas e mantendo a vigilância.



D. Manuel de Portugal, filho de D. António Prior do Crato, integrou a expedição inglesa de 1589 e mais tarde, com o seu irmão D. Cristóvão acompanharam a armada inglesa liderada pelo Conde de Essex contra Cádiz em 1596.

Entretanto, em Lisboa, os pedidos insistentes do Conde de Vila da Horta para sair com a cavalaria portuguesa foram ignorados pelo Conde de Fuentes, que os deixou preparados na praça do Rossio sem, contudo, avisá-los da sua saída. Os desentendimentos com o Conde de Fuentes não impediram o general português de se juntar a ele pouco depois na perseguição aos ingleses e a D. António até Oeiras, mas atingem Cascais já tarde no dia 7, com o inimigo entrincheirado na vila e no Mosteiro de Santo António, conseguindo apenas interceptar os retardatários no caminho e nas quintas dos arredores. No dia seguinte o Conde de Fuentes regressou a Lisboa, não sem antes recusar novo desafio pessoal do Conde de Essex para um combate organizado entre as forças adversárias, invocando a impossibilidade de aceitar batalha sem ordem do Rei.


As tropas espanholas asseguraram a defesa de Lisboa adoptando uma táctica passiva com um mínimo de confrontos, deixando os invasores ingleses enfraquecer-se devido às próprias limitações logísticas e à fraca qualidade do contingente militar. (painel de azulejos do Palácio dos Marqueses de Bazán, em Ciudad Real)

Nos dias seguintes, os oficiais espanhóis discutem em Lisboa sobre a melhor maneira de destruir a armada inglesa, enquanto se abrem trincheiras ao longo dos possíveis desembarcadouros na margem Norte do Tejo, e os reforços se acumulam na capital, de entre os quais sobressaía o Duque de Bragança D. Teodósio e o seu irmão à frene de uma hoste de 1.000 homens de pé e 200 cavaleiros. Por seu lado, os ingleses preparam em Cascais o reembarque das tropas, após se terem recomposto com o gado recolhido nas redondezas da vila e de saquearem Colares e Sintra, de onde trouxeram armas e dinheiro. A armada de Sir Francis Drake apresou ainda uma imprudente frota de 60 navios hanseáticos carregados de cereais destinados a Lisboa, mas de pouco valeu a carga, pois a cavalaria portuguesa destruíra as mós dos moínhos em Oeiras e em Barcarena.

Embora ao longo do caminho para Lisboa as guarnições de Peniche, Torres Vedras e Cascais se tenham entregue praticamente sem resistência, as forças inglesas não foram suficientes nem para entrar na capital, nem para obter apoio popular à desejada sublevação portuguesa contra as autoridades espanholas. Em apenas 3 semanas de operações, as hostes inglesas haviam sofrido perto de 4.000 baixas devido a deserções, doença e combates, desde o cerco da Coruña. Confrontado com a sólida defesa organizada pelas forças militares espanholas, Drake saqueou a vila de Cascais e incendiou o castelo, partindo no dia 18 de Junho rumo ao Cabo de São Vicente com 8.500 sobreviventes.

Porém, na viagem de regresso da costa algarvia uma semana depois, a armada inglesa foi interceptada depois de temporariamente imbolizada por uma calmaria ao largo do Cabo Espichel pelas 15 galés espanholas estacionadas no Tejo comandadas pelo Adelantado Mayor de Castela D. Martín de Padilla Manrique (futuro Capitão-geral da Armada do Mar Oceano) e, numa acção inédita na carreira de Drake, este perde 5 navios em combate (3 afundados e 2 incendiados) que durou 3 horas com as forças defensoras na perseguição movida ao largo da costa portuguesa.

Entretanto, alguns navios ingleses enviados a recolher as tropas deixadas em Peniche são recebidos com tiros de artilharia da guarnição espanhola. Descobrem então que o capitão inglês a cujas ordens ficaram os últimos ingleses já havia partido para Inglaterra, abandonando 300 soldados à sua sorte.


Apesar da superioridade dos navios ingleses de alto-bordo sob Drake, as fortes defesas da barra do Tejo dissuadiram
o avanço da armada inglesa até Lisboa, suscitando duras críticas contra Drake

Pouco depois, o mau tempo obrigou ao cancelamento do desembarque inglês nas ilhas dos Açores, último objectivo da expedição. Poucas semanas depois, no início de Julho, as cobiçadas naus da Índia ancoraram na Baía de Angra, na ilha Terceira, onde aguardaram em segurança o regresso a Lisboa. Finalmente, a armada de Drake pôs-se em fuga e abandonou o litoral português rumo a Inglaterra, não sem antes saquear e incendiar Vigo, na Galiza. A 10 de Junho, Drake e D. António aportaram em Plymouth, trazendo os navios em mau estado e as tropas em situação miserável. Poucos dias depois estalaram motins e distúrbios entre os soldados que reclamaram soldos em atraso. Em Londres, o Secretário de Estado Walsingham escreveu a D. António, aconselhando-o prudentemente a partir para França pois caíra em desfavor na Corte inglesa.


Abadia de Buckland (Devon, Sul de Inglaterra), lar de dois grandes corsários ingleses, Sir Richard Grenville e Sir Francis Drake (que a adquiriu ao primeiro), foi lugar de reunião entre o pretendente ao trono português no exílio D. António e o próprio Drake na preparação das iniciativas contra Filipe II de Espanha.

Em Lisboa, celebrou-se a 20 de Julho uma procissão de acção de graças entre a Sé e São Francisco, na qual participaram todas as ordens religiosas, confrarias e gente "principal" e se transportou uma imagem de Nossa Senhora da Guia mutilada pelos ingleses, proveniente de uma ermida de Cascais. Seis semanas depois, a população de Roma assistiu ao regozijo do Papa Sixto-Quinto com a boa nova da retirada da expedição inglesa de Portugal, compondo pessoalmente um salmo e várias preces e liderando 36 cardeais e toda a Corte Pontifícia em mais uma procissão até à igreja de Sant'Antonio dei Portoghesi.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (II)

Parte II - O Regresso do "Pobre Rei" D. António

Infantaria inglesa da época isabelina em marcha. Gravura da obra de John Derrick, Images of Ireland (1581).

Deixando em Peniche os soldados doentes e feridos e 3 navios para assegurar uma eventual retirada, o General Sir John Norris, D. António de Portugal e o conde de Essex iniciaram a marcha para Lisboa com menos de 6.000 homens e 44 cavaleiros, mas desprovidos de artilharia. Essex e o Coronel Sir Roger Williams comandavam a vanguarda, enquanto D. António e o seu filho viajaram na retaguarda da formação protegidos pela cavalaria. Sob um sol escaldante de Primavera, demoraram 6 dias para percorrer os 80 km de caminho sinuoso até Lisboa. No dia 28 de Maio, D. António e as tropas inglesas chegaram à Lourinhã, enquanto as tropas espanholas se retiraram de Torres Vedras para Enxara dos Cavaleiros, mantendo somente uns cavaleiros "sempre à vista do inimigo" e enviando batedores por "todas partes". A estratégia defensiva das forças ocupantes espanholas era prudente, deixando o inimigo desgastar-se na marcha para Lisboa e envolvendo o mínimo de confrontos.

D. António entrou pouco depois em Torres Vedras a 29 de Maio após a retirada da guarnição espanhola e desfilou debaixo de um "pálio" (espécie de toldo portátil) tal como faziam os monarcas nas paradas, procedimento que se repetiu em todas as povoações no seu caminho. Entretanto, juntaram-se-lhes frades, gente pobre e alguns fidalgos que prometiam a adesão de muitos mais apoiantes portugueses.

Contudo, após 8 anos de ausência do pretendente português e da dura repressão espanhola sobre nobres, religiosos e populares, a esperada adesão popular a D. António não se concretizou. O sangrento episódio do rei da Ericeira em 1585 criara tanto medo na população que muitos temiam mais "serem prezos por estes cazos que não pella Santa Inquisição". Só no início de 1589, o rei Filipe II (D. Filipe I de Portugal) ordenara a deportação de 70 fidalgos suspeitos. E durante o cerco de Lisboa movido pelas tropas inglesas seria degolado um irmão do Barão de Alvito por suspeitas de conspiração e o Conde de Redondo encarcerado no castelo de São Jorge. O facto de D. António se fazer acompanhar de uma hoste de "hereges" Protestantes, ainda que libertadores, também comprometeu o pretendido apoio popular.


Robert Devereux, 2.º conde de Essex, fidalgo aventureiro e um dos cortesãos favoritos da Rainha Isabel I, acompanhou a expedição de Sir Francis Drake e D. António a Portugal, integrando o contingente militar infringindo a vontade da Rainha que ordenou o seu regresso logo após a notícia da sua partida.


A notícia do desembarque inglês provocou o pânico em Lisboa. Nas primeiras horas da manhã, os habitantes abandonaram a capital com os seus haveres, desembolsando fortunas pelo aluguer de simples carroças e quaisquer barcos rumo ao Barreiro e ao Montijo.

No arraial inglês, a falta de mantimentos agravou-se com o cumprimento das ordens do General Norris, proibindo qualquer roubo a portugueses, o que obrigou os ingleses a comer "muitas imundicias... e muitos delles se embebedavão, por aver muito vinho", de que muitos "adoecião e morrião". Na noite de 30 de Maio, os ingleses instalaram-se em Loures. Chegadas aqui, as tropas invasoras sofrem a primeira investida das forças espanholas durante quase 2 dias, causando algumas baixas e fazendo prisioneiros, cujo interrogatório confirma o estado debilitado dos ingleses.

No dia 31, o campo espanhol transfere-se para as imediações da ponte de Alcântara, prevendo a eventual subida do Tejo pelos navios de Drake, enquanto as religiososas dos conventos extra-muros da Esperança, Odivelas e Santos-o-Novo são acolhidas em Lisboa, bem como a população residente nas numerosas quintas dos arrabaldes. O pavor dos invasores hereges levou algumas religiosas a regressarem a casa das respectivas famílias, enquanto outras provocaram escândalo ao refugiarem-se nas celas e nos dormitórios dos frades no mosteiro de São Francisco, dando lugar a boatos maliciosos e à perturbação dos ofícios religosos.

Sir Francis Drake e a armada inglesa em Cascais

Fortificações de Cascais no século XVI: em cima, gravura de Georg Braun representando a torre joanina e em baixo a fortaleza filipina hoje em dia, construída sobre a primeira e cujo alcaide espanhol se rendeu às forças inglesas de Drake em 1589.

Terça-feira, dia 30 de Maio, a baía de Cascais é enquadrada pela armada liderada por Sir Francis Drake. Após um rápido desembarque defronte do Mosteiro de Santo António (actuais Salesianos do Estoril), 300 soldados ingleses assumiram a vanguarda de um contingente de 1.500 homens que cercou e tomou a fortaleza de Cascais, apoiados pela artilharia da armada.

Simultaneamente, um piloto português desembarcado do Revenge, navio de Drake, convenceu a população local a acolher os invasores e apoiar D. António na sua luta pelo trono português. O alcaide espanhol da fortaleza de Cascais rendeu-se devido às notícias comunicadas pelo seu capelão (padre do convento de Santo António do Estoril) e depois de Drake ter comunicado que Lisboa também se entregara. O desafortunado alcaide espanhol retirou-se num barco a remos e a sua guarnição abandonou a fortaleza, apenas para mais tarde ser sentenciado à morte por traição e executado em praça pública na Ribeira de Lisboa.
As forças navais portuguesas encontravam-se em plena reconstrução após o fracasso da "Invencível" Armada de 1588, não intervindo na defesa de Lisboa contra a expedição inglesa de 1589. Nesta ocasião, a barra e o estuário do Tejo foram defendidos por navios da Coroa de Espanha. Gravura de Frans Hogenberg sobre desenho de Georg Braun, no grande atlas urbano de Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum (1598).

No Tejo,as defesas a ultrapassar pela armada consistiam na esquadra de 12 galés de D. Alonso de Bázán (irmão do falecido Marquês de Santa Cruz, idealizador da "Invencível" Armada de 1588 e falecido em Lisboa no início desse ano), a fortaleza de São Julião da Barra substancialmente ampliada e a plataforma de artilharia erguida no areal da Cabeça Seca (Bugio).

Planta hidrográfica da barra de Lisboa topografada em 1589 com indicação das trincheiras feitas pelos defensores espanhóis quando da "vinda dos ingleses". Alexandre Massai, "Discripcaõ Relaçaõ do Reino de Portvgal Segvndo Tratado", 1621 (Museu da Cidade, Lisboa).

Na mesma noite em que as forças de Drake tomaram a fortaleza de Cascais, este soube da chegada do General Norris e de D. António aos subúrbios de Lisboa.



O Inimigo às Portas de Lisboa: o breve cerco da capital
Após a longa marcha desde Peniche, D. António e as forças inglesas alojaram-se nas colinas dos Moinhos de Vento (Príncipe Real) e do Bairro Alto, onde permaneceram durante os breves mas intensos combates para entrar nos muros da Lisboa. Reconstituição em Campanhas do Prior do Crato: entre reis e corsários pelo trono de Portugal, 1580-1589 (2005) ©

Na manhã de 1 de Junho, dia de Corpo de Deus, Lisboa não celebrou a habitual procissão do Santíssimo Sacramento. Concentrando forças e precavendo-se de uma eventual sublevação popular, o exército espanhol coordenado pelo Vice-rei Alberto de Áustria e comandado pelo Capitão-geral conde de Fuentes recolheu para o interior dos muros da capital, distribuindo dezenas de companhias de infantaria pelas praças de armas improvisadas em Nossa Senhora da Graça, no Terreiro do Paço e no Rossio, assim como ao longo da muralha fernandina e entulhando as diversas portas e postigas. A cavalaria portuguesa, liderada por D. Francisco Mascarenhas, conde de Vila da Horta, foi encarregue de patrulhar as ruas da cidade, prevenindo qualquer alteração da ordem. O reforço da defesa da capital foi considerável: na véspera do desembarque inglês em Peniche, Lisboa contava com 6.680 soldados, já durante o ataque às muralhas da cidade, os efectivos atingiram perto de 12.000 homens (dos quais apenas 1.000 seriam portugueses). Os defensores possuíam, assim, quase o dobro de homens das foras atacantes.

Fora de muros, na Pampulha, as autoridades incendiaram deliberadamente os armazéns de cereais e derrubaram as casas enconstadas à muralha medieval no Bairro Alto, impedindo qualquer apoio às hostes invasoras na guerrilha urbana que se antevia.

Na tarde seguinte, após um breve reconhecimento dos bairros abandonados nos arrabaldes da capital, as tropas inglesas entricheiraram-se no casario entre os Moínhos de Vento (actual Rua da Escola Politécnica/Príncipe Real) e em Santa Catarina até à Esperança e Boavista, tomando posição estratégica no alto de uma das colinas de Lisboa facilmente defensável dominando grande parte da cidade e beneficiando de bons alojamentos, situando-se numa zona de eleição da nobreza com diversas quintas e solares. O General Norris estabeleceu o quartel-general improvisado na quinta dos Soares da Cotovia (actual R. da Escola Politécnica, onde hoje se ergue o edifício da Imprensa Nacional). Porém, os defensores espanhóis mantiveram os invasores debaixo de mira e os alojamentos ingleses foram alvo dos tiros da artilharia do castelo de São Jorge no lado oposto do vale, cujos disparos foram recebidos com aplausos e demonstrações de desprezo pelos sitiantes. Um dos tiros atingiu em cheio o quartel-general inglês "salpicando" D. António de cal e pedras, obrigando-o a escolher refúgio seguro mais abaixo, na Calçada do Combro.



Em São Roque e em Santa Catarina ocorreram os combates mais intensos na tentativa de assalto das tropas inglesas à capital. Actualmente, algumas ruínas da muralha medieval de Lisboa contíguas às antigas Portas de Santa Catarina encontram-se preservadas (actual Espaço Chiado, próximo do Teatro da Trindade).


Na madrugada de 3 de Junho, com apenas 200 portugueses reunidos a D. António desde o o desembarque em Peniche, o General Norris inicou o ataque aos muros da capital com uma incursão na igreja do Loreto no Bairro Alto, contígua à muralha fernandina. Aproveitando a baixa-mar, as tropas inglesas aproximaram-se da parte mais vulnerável da muralha na sua extremidade à beira-rio, enconstada ao imponente palácio dos Corte-Reais (ao Corpo Santo, e destruído no terramoto de 1755), propriedade do controverso D. Cristóvão de Moura. O assalto foi impedido, ironicamente, pela pequena nau espanhola María San Juan, única sobrevivente da "Invencível Armada" regressada a Lisboa, cujos tripulantes bascos puderam assim vingar a derrota do ano anterior, desencadeando um potente fogo de barragem juntamente com as galés.

Pouco depois do meio-dia, aproveitando a chegada de 500 soldados veteranos das guarnições do Porto, as forças espanholas dividiram o contra-ataque em duas frentes: pelas portas de Santo Antão saíram 500 arcabuzeiros e "piqueiros" apoiados por 3 companhias de cavalaria, que subiram a encosta da Anunciada ao longo da muralha até São Roque (actual Largo de São Roque ou da Misericórdia), enquanto um contingente de 200 "atiradores" ganhou o interior da igreja do Loreto, onde os ingleses que já tinham a porta da mesma arrombada foram repelidos pelos mosqueteiros no telhado, nas varandas e janelas da igreja de São Roque.

A luta ao redor da quinta da Cotovia (posteriormente Colégio dos Nobres e actual Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde ainda se encontra sepultado um importante oficial naval português contemporâneo do Prior do Crato, Fernão Teles de Meneses) revelou-se mais encarniçada, envolvendo-se as forças em luta corpo-a-corpo, depois de os espanhóis, aos gritos de "Viva elRey Dom Antonio" terem momentaneamente confundido as tropas inglesas. Desalojadas as trincheiras inglesas, a cavalaria espanhola carregou, mas as ruas estreitas limitaram as suas manobras e sofreram fogo dos atirados inimigos situados nas janelas do casario, forçando os cavaleiros a retirar com algumas baixas e atropelando a própria infantaria. Foi necessário o reforço de 200 arcabuzeiros e 50 "piqueiros" para cobrir a sua retirada. A intensidade do contra-ataque inglês, aproveitando a retirada da cavalaria espanhola trouxe os combatentes de ambos os lados envoltos de volta às Portas de Santa Catarina (actual Largo de Camões), frente às quais o conde de Essex desafiou a guarnição defensora a sair e combater. Após este breve mas intenso ocombate, ambos os lados contaram cerca de 40 mortos, entre os quais vários oficiais. Os ingleses enterraram um dos seus capitães em Santa Catarina com muitas cerimónias, enquanto os feridos espanhóis foram transportados para o Hospital Real de Todos os Santos (actual Praça da Figueira).

Contudo, durante esta acção a armada de Drake mantivera-se bem longe, não subindo o Tejo para o encontro combinado com as forças de Norris em Lisboa. Sem este apoio, a situação das tropas inglesas rapidamente se tornou insustentável. O General Norris levantou campo ao final da tarde de doingo dia 4 de Junho e retirou-se furtivamente de madrugada deixando várias fogueiras acesas para iludir os sitiados. Sem o esperado apoio popular e face aos reforço constante da cidade pelas forças espanholas através do Rio Tejo, os comandante ingleses decidiram não arriscar e prosseguiram ao reencontro de ambos em Cascais para decidirem os próximos objectivos.

Para D. António, este foi um efémero e amargo regresso, esfumando-se as esperanças de uma sublevação que o ajudaria a recuperar o trono de Portugal. Filipe II de Espanha (I de Portugal) impedira com sucesso a capital portuguesa de receber o "pobre rei" português exilado, "sem a qual (cidade) o mesmo se encontra arruinado", nas palavras de um dos participantes da expedição inglesa.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589

Parte I - D. António Prior do Crato, os "piratas hereges" e o trono de Portugal


Baixo-relevo tumular da família Hales, c. 1596, na Catedral de Canterbury (Kent, Inglaterra), representando a morte no mar de Sir James Hales, tesoureiro da armada de Sir Francis Drake a Portugal em 1589. Trata-se do único monumento iconográfico contemporâneo da expedição identificado pelo autor.


A 18 de Abril de 1589, dez meses após a derrota da “Invencível Armada” que pretendera invadir Inglaterra, o célebre corsário e almirante inglês Sir Francis Drake partiu do porto de Plymouth rumo à Península Ibérica. O galeão a bordo do qual seguia denominava-se apropriadamente Revenge. Conjuntamente chefiada por Sir Francis Drake e Sir John Norris, oficial veterano da Guerra dos Países Baixos (indigitados, respectivamente, comandante da armada e do exército), esta foi uma das maiores expedições navais do século XVI.

A bordo da armada seguia a pequena corte portuguesa no exílio desde 1581: D. António, Prior do Crato, pretendente ao trono português, o seu filho D. Manuel de Portugal e mais de 70 partidários portugueses, juntamente com um contingente anglo-holandês de 12.400 soldados. A Inglaterra passava à ofensiva pelo domínio do Atlântico.



 D. António, efémero rei de Portugal, ou "pobre rei" nas palavras dos seus aliados ingleses, liderou a resistência portuguesa contra Filipe II e a Monarquia Hispânica. Exilado após a invasão espanhola de 1580, conseguiu regressar a Portugal em 1589, de onde partiu novamente derrotado. A sua pretensão à coroa portuguesa baseava-se no pressuposto da sucessão electiva e não hereditária. Para tal, promoveu uma intensa edição de panfletos em várias línguas publicitando os seus argumentos contra Filipe II. O segundo retrato é o único genuíno, realizado em vida de D. António pelo holandês Jodocus Hondius, que realizou igualmente um retrato gravado de Sir Francis Drake (José Teixeira, Genealogia Regum Portugalliae, 1592; original na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro)

D. António, filho ilegítimo do infante D. Luís (filho do rei D. Manuel), gozara de um reinado efémero: aclamado pelo povo e principais cidades do reino nas vésperas da invasão espanhola em Junho de 1580, o Prior do Crato resistira com o apoio do povo e do baixo clero, mas acabara derrotado dois meses depois na batalha de Alcântara. Não obstante a fácil conquista de Portugal, D. António manteve-se como uma das maiores preocupações do monarca espanhol.

Tencionava repetir-se o êxito dos ataques-surpresa executados com mestria por Drake a Cádiz e Sagres (1587), mas em maior escala e com o objectivo prioritário de destruir as unidades sobreviventes da “Invencível Armada” que haviam regressado ao norte de Espanha. Cedo se estabeleceram dois novos objectivos: repôr D. António no trono português - abrindo uma nova frente contra Espanha - e interceptar a “Frota da Prata” espanhola ao largo dos Açores, interrompendo o fluxo vital de metais preciosos para Espanha e assegurando uma base naval estratégica.


Sir Francis Drake, o mais famoso corsário e almirante da Rainha Isabel I de Inglaterra. O fracasso da expedição a Portugal de 1589 evitou um golpe decisivo no poder naval espanhol e valeu-lhe o afastamento da Corte inglesa por 6 anos. Autor anónimo, pós-1580 (National Portrait Gallery, Londres) 

Dada a penúria das finanças isabelinas, tal como nas expedições anteriores de Drake, investidores privados proporcionaram o grosso da armada, constituída por navios de transporte armados. O investimento seria amortizado pela captura da frota das Índias e o livre acesso aos portos em Portugal.


Assalto à Coruña: primeiras dificuldades

Ventos contrários e problemas logísticos atrasaram a armada em seis semanas, criando despesas extraordinárias. Após a partida, a 28 de Abril, desertaram ainda 25 navios holandeses levando a bordo 2.000 homens. Alcançada a Coruña em 4 de Maio, as forças inglesas alcançam o primeiro objectivo da expedição, com o ataque a dois galeões regressados da fatídica "Invencível" Armada no ano anterior, que se encontravam em reparações: eram eles o São João, navio-almirante da esquadra da Coroa de Portugal e o São Bernardo, integrante da mesma. Enquanto a tripulação do primeiro incendiou o próprio navio para evitar que caísse em mãos inimigas, o segundo escapou, não sem antes os ingleses terem capturado a artilharia que se encontrava desembarcada.



Os desembarques ingleses, temidos pelas populações peninsulares, caracterizavam-se pelos roubos e violência contra civis mas também contra alvos religiosos, saqueando e destruindo edifícios religiosos.
Este também foi o caso na expedição de 1589.

Após um desembarque bem sucedido, mas em clara desobediência às ordens da Rainha, os ingleses apenas conseguem tomar a cidade baixa, onde se instalam D. António e o seu filho com as tropas de Isabel I. O alarme soou por toda a Galiza. Na vizinha cidade de Santiago de Compostela, o Arcebispo apelou à defesa da catedral para que o "Santo corpo do Apóstolo (...) não seja profanado por estes bárbaors hereges". A disciplina das tropas inglesas, maioritariamente recrutas inexperientes, provou ser tarefa difícil, sobretudo após a descoberta das adegas locais. Surgiram também os primeiros focos de epidemia provocando muitas mortes por entre os invasores.
Finalmente, depois de confrontados com uma forte resistência popular e desprovidos de equipamentos de cerco, os ingleses reembarcaram no dia 7 de Maio, deixando a cidade baixa saqueada e em chamas. O aviso do desembarque na Coruña tinha sido recebido em Lisboa a tempo de se reforçarem as defesas da capital portuguesa. Era chegado o momento da costa portuguesa se confrontar com o mais famoso corsário da sua época trazendo nos seus navios o rei exilado D. António acompanhado dos "piratas hereges".


Itinerário da expedição inglesa liderada por Sir Francis Drake e Sir John Norris em apoio de D. António
para reconquistar o trono de Portugal em 1589.

Desembarque em Peniche: o regresso de D. António a Portugal

Pelas 10 horas da manhã de sexta-feira 26 de Maio de 1589, a vila de Peniche foi surpreendida por uma esquadra de 155 navios manobrando ao largo. Perto das 16:00 horas as tropas inglesas iniciam o desembarque de um contingente de 6.500 homens no areal de Nossa Senhora da Consolação, a Sul da península. O jovem conde de Essex arriscou afogar-se para ser o primeiro a tocar em terra.

A defesa da praia revelou-se difícil para a reduzida guarnição espanhola, pois era demasiado ampla e a própria localização desabrigada da forte ondulação e do vento Norte não haviam determinado a sua vigilância. O desembarque inglês prosseguiu durante o final do dia até que na mesma noite sob uma lua quase cheia, Essex e o General Norris entraram na vila abandonada pelos militares espanhóis, que recuaram para novas posições defensivas aguardando reforços.


Fortaleza de Peniche , um dos raros edifícios actualmente existentes que testemunhou o desembarque inglês com D. António. (fotografia datada do segundo quartel do século XX. Arquivo Histórico Militar, Lisboa)




Em Peniche, o alcaide da fortaleza e muitos habitantes fugiram em pânico mal souberam da presença de Drake. Mas, à vista de D. António que desembarcara com uma cruz levantada e uma "insígnia" da Virgem Maria, o capitão entregou a fortaleza apesar desta se encontrar bem provida de artilharia e munições. O pretendente ao trono não perdeu tempo e distribuíu uma carta-manifesto na qual convocou o povo a recebê-lo enquanto libertador, assim como às tropas inglesas e à armada que o apoiavam. Nos dias seguintes, D. António e o seu filho distribuiram aos portugueses armas e munições capturadas na esperança de os acompanharem até à rendição de Lisboa.

Quanto aos reforços locais convocados pelas autoridades espanholas em Óbidos, Torres Vedras e Alcobaça, não passavam de "gente rústica, e fraca", que debandou "já sem armas e ânimo". No dia 27 de Maio, as forças inglesas dividiram-se: o General Norris iniciou a marcha até Lisboa e Drake partiu pouco depois com a armada rumo a Cascais. Ambas as forças deveriam reunir-se para o assalto conjunto à capital portuguesa.
(NOTA: textos e imagens deste "post" e dos seguintes dedicados à expedição inglesa de 1589 adaptados do meu livro Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal publicado em 2005 pela Editora Tribuna da História, e já divulgado em "post" anterior)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Novidades Marítimas e Subaquáticas

Mergulho Virtual nos Fundos Marinhos



Topografia do leito submarino do Atlântico Norte e localização do naufrágio do Titanic (1912)


O GoogleEarth aventurou-se finalmente na navegação oceânica. Graças à parceria entre o gigante de software com a Scripps Institution of Oceanography da Universidade da California em San Diego, desde o início deste mês estão disponíveis online novos recursos geográficos, tais como a cartografia dos fundos oceânicos em alta resolução e os próprios percursos das expedições científicas marítimas.
Este projecto muito esperado denominado Google Ocean disponibiliza pela primeira vez uma representação integral em 3D dos fundos marinhos. Um dos novos "layers" denomina-se "Ocean Expeditions" e resulta de uma ambiciosa expedição científica após um percurso total de 100.000 milhas náuticas efectuado no decurso de dois anos e meio pelo navio oceanográfico R/V Melville.


Navio oceanográfico R/V Melville

Entre outros pontos de interesse devidamente destacados nestes mapas assinalam-se vulcões submarinos e estudos acerca do campo magnético da Terra, para além de uma base de dados batimétrica detalhada e actualizada.


Mais ainda, a nova versão Google Earth 5 permite aos internautas não só a importação de dados de navegadores GPS, a utilização de uma multiplicidade de "layers" relacionados com os mares, incluindo locais de naufrágios, informações de geolocalização por GPS de diversas espécie animais em tempo real , videos e imagens dedicadas ao meio ambiente oceânico a partir de instituições tais como a National Geographic Society, a Cousteau Society, a International Union for Conservation of Nature (IUCN), o Monterey Bay Aquarium e o National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), numa reunião inédita de informações sobre o mundo subaquático.



Exemplo da geolocalização por GPS de espécies animais em tempo real

Para mais informações, veja-se a página oficial da Google.

sábado, outubro 06, 2007

Arte e Ciência no Mar no Século XIX



Os Cadernos de Esquiços da Expedição de Charles Darwin


O Indus no percurso Rio de Janeiro – Montevideo que levou o desenhador Martens ao encontro com Darwin (1833)


HMS Beagle no Estreito de Magalhães (1834)

Um banal percurso marítimo levou um artista a participar na mais famosa expedição maritimo-científica do século XIX, e provavelmente a última ainda realizada em navios de madeira à vela.
A bordo do H.M.S. Hyacinth rumo à Índia Britânica, o pintor Conrad Martens (autor de um diário a bordo deste navio) navegou de Plymouth por Gibraltar e o Funchal até ao Rio de Janeiro, onde soube da vaga disponível para um desenhador na expedição de Charles Darwin em Julho de 1833. Martens ocupou as suas funções a bordo do H.M.S. Beagle entre Novembro de 1833 até Julho de 1834, participando na missão científica que iria celebrizar Darwin como autor da teoria da evolução biológica no livro Sobre a Origem das Espécies pela Selecção Natural (1859).

Antes de chegar ao Brasil, e após haver falhado a paragem na ilha da Madeira devido a uma tempestade, Charles Darwin havia aproveitado a primeira escala da expedição na ilha de Santiago, Cabo Verde, que denominou de local "desolador", para visitar as povoações da Praia, Ribeira Grande e São Domingos, onde fez anotações sobre o ambiente, as pessoas, a fauna e a flora. Este foi o início de uma longa viagem de 4 anos e 9 meses ao longo dos quais estudou aspectos zoológicos e geológicos e recolheu inúmeros fósseis e espécimes raros das diversões regiões que atravessou.



Porém, o desenhador Martens foi obrigado a deixar a expedição no Chile seguindo ordens do Almirantado inglês para reduzir os custos da mesma. Ainda assim, o artista inglês prosseguiu a sua actividade de registo da natureza e povoações visitadas através do Pacífico, enquanto o H.M.S. Beagle atravessou o Estreito de Magalhães e dirigiu-se para o Pacífico Oeste, tocando nas ilhas de Tahiti e em seguida na Nova Zelândia e na Austrália, local onde o desenhador e Darwin se reencontraram brevemente em 1835. Darwin regressou a Inglaterra em Outubro de 1836, enquanto Martens se fixou na Austrália.

Eis agora, em resultado do seu acidentado percurso marítimo, os desenhos de dois cadernos (dos quatro originais) de Martens, acessíveis nas Colecções de Imagens Digitais da Biblioteca da Universidade de Cambridge, em Inglaterra.


Panorâmica da Baía da Guanabara com o Pão de Açúcar, Rio de Janeiro (1833)


Praia de Botafogo, Rio de Janeiro (1833)

Curiosamente, estes desenhos e outras aquarelas de Conrad Martens, entre várias obras de outros artistas estrangeiros dos séculos XVIII e XIX que retrataram a Cidade Maravilhosa, estiveram expostos no Rio de Janeiro ainda este ano num evento cultural intitulado O Rio de Janeiro Sob o Olhar dos Navegantes .



O navio de Darwin no século XXI

Quanto ao H.M.S. Beagle, o diário de viagem escrito por Darwin foi parcialmente transcrito e ilustrado num blogue e numa edição digital académica integral realizada pela Universidade de Cambridge.

Nos Estados Unidos, a NOAA (literalmente, Administração dos espaços Oceânicos e Atmosféricos, ou agência científica ambiental do governo norte-americano) homenageou os últimos 200 anos de expedições científicas no mar disponibilizando online excertos de algumas das narrativas contidas na sua Colecção de Livros Raros, entre os quais se contam parte dos 3 volumes do relato oficial das viagens empreendidas pelo HMS Beagle entre 1826 e 1836.

Finalmente, está em marcha o Projecto Beagle, uma iniciativa ambiciosa para assinalar o bicentenário do nascimento do célebre naturalista inglês que inclui a construção de uma réplica do H.M.S. Beagle, cujo lançamento à água irá ocorrer em 2009 e deverá circumnavegar o globo até 2011.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Pesca de Naufrágios


A época de ouro de Portugal é-nos amplamente demonstrada através de uma longa e rica História marítima. Mas a Arqueologia Subaquática revela-nos que aquela se acompanhou de uma outra história, submersa. Este aspecto não tem sido merecedor de atenção por parte de investigadores nem historiadores.
De facto, o pequeno país à beira-mar, assim como os seus dois arquipélagos, possuem no seu conjunto um dos maiores patrimónios subaquáticos a nível mundial. Trata-se de um legado de grande importância e com enorme potencial de estudo arqueológico. Graças ao desenvolvimento da Arqueologia Náutica e Subaquática estes testemunhos silenciosos têm enriquecido em particular o nosso entendimento da época de ouro da navegação ibérica.

Recuperações Marítimas e Subaquáticas na Época da Expansão

Claro que, na época em que estas perdas marítimas ocorreram, os contemporâneos não esperaram pelos arqueólogos do séc. XX para deitar mãos à obra e mergulhar em busca dos navios e cargas afundados. O fascínio envolvido na história dos desastres marítimos suscitou através dos tempos o interesse pela potencial riqueza submersa no rasto de inúmeros naufrágios. Pondo à prova o engenho humano, o desafio da exploração subaquática permitiu aperfeiçoar técnicas de resgate numa longa série de ensaios por parte de marinheiros, arquitectos, engenheiros militares e inventores, partilhando curiosidade, interesse científico e espírito comercial. Fruto de sucessivas adaptações tecnológicas, os “engenhos” e “máquinas” de mergulho permitiram atingir progressivamente maiores profundidades, imersões mais prolongadas e proporcionaram a remoção de navios e cargas afundadas.



Numa investigação abrangente e original, é documentada pela primeira vez no panorama português e europeu a outra face das navegações, a história das recuperações subaquáticas na época dos Descobrimentos. São apresentados o contexto, as motivações, os protagonistas, os meios e as experiências por detrás das operações de resgate, bem como as potencialidades de reutilização e e aproveitamento dos destroços em terra e no mar. A informação histórica, arqueológica e documental proporcionada nesta obra é ainda complementada por uma vasta iconografia onde são retratados aspectos e episódios pouco conhecidos da época da Expansão marítima.



P.S.
Praticamente um ano depois do último "post", volto a escrever aqui apenas para divulgar este meu novo estudo que me levou a mergulhar literalmente dos fundos de arquivos aos fundos dos mares e lembrar os dois anteriores: Invencível Armada 1588: a Participação Portuguesa (Lisboa, 2002) e As Campanhas do Prior do Crato 1580-1589: entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal (Lisboa, 2005), cujas sinopses se podem ler aqui, ambos publicados pela Editora Tribuna da História. Para finalizar, encontro-me em pleno trabalho na próxima obra cuja investigação iniciei há varios anos, dedicada ao poder naval português no final do séc. XVI e cuja publicação está prevista para o Outono de 2007. A seu tempo, mais notícias sobre estas andanças marítimas.

Aviso à navegação
A Pesca de Naufrágios já está nas livrarias, mas para quaisquer informações e pedidos podem contactar-me ou à Editora Tribuna da História: Rua Vasco da Gama, nº 60C
2775-297 Parede.
Tel.: 211 910 543 / e-mail: tribunadahistoria@iol.pt / facebook: www.facebook.com/tribunadahistoria

Update
Recensão do meu livro aqui

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Comemorações Navais



Duelo nos Mares

Para comemorar os 200 anos da batalha naval de Trafalgar, decorrerá uma exposição histórica com abertura prevista para o próximo Verão intitulada Nelson & Napoléon, patente ao público entre 7 de Julho e 13 de Novembro no National Maritime Museum, em Greenwich.

Travada ao largo do Cabo de Trafalgar (Andaluzia) a 21 de Outubro de 1805, esta foi a última grande batalha naval de navios à vela, marcando o fim das pretensões marítimas da França napoleónica. A Royal Navy de Lord Nelson derrotou a armada conjunta franco-espanhola liderada pelo Vice Almirante Charles de Villeneuve, mas acabaria mortalmente ferido pelo disparo de um atirador inimigo. Uma manobra táctica fulgurante que pode ser seguida em animação, aqui.

Joseph M. William Turner, Trafalgar, 1824 (National Maritime Museum, Greenwich)

O evento foi reconstituído pelo célebre pintor romântico Turner numa tela encomendada pelo rei Jorge IV de Inglaterra. Curiosamente, o artista foi criticado quando da primeira exposição do quadro no palácio de Saint James. Turner viu-se na obrigação de retocar a sua obra corrigindo elementos náuticos como a mastreação e o complexo cordame.
Mais informações sobre os quadros e estudos de Turner podem ser obtidos na Tate Gallery de Londres.

Depois de uma luta de 2 horas contra o HMS Victory, o Redoutable sucumbe ao ataque do HMS Temerarious. Auguste Mayer, 1836 (Musée de la Marine, Paris)


Denis Dighton, The Fall of Nelson, 1825 (National Maritime Museum, Greenwich)
Inicia-se assim um conjunto de comemorações que irá decorrer durante todo o ano, declarado Ano do Mar em Inglaterra, organizadas pelo National Maritime Museum sob a forma de um festival marítimo intitulado SeaBritain 2005 , grandiosa homenagem marítima com regatas, reconstituições históricas e exposições, para celebração do Mar com o qual os ingleses, genuínos ilhéus, sempre contaram para a defesa e expansão do seu império.

Os franceses também comemoraram a face marítima do efémero império napoleónico, num evento menos divulgado do Musée de la Marine em Paris, mas com um catálogo interessante e uma exposição virtual sobre o sonho do império marítimo gaulês. A clicar.





 

Navios e Canhões




Últimos grandes navios de guerra movidos a vela, os navios de linha da era napoleónica desafiavam os inimigos e os mares encerrando na sua estrutura uma estética imponente feita de robustos cascos a partir de milhares de carvalhos das florestas nórdicas, unidos por toneladas de pregadura de cobre e ferro e complementados com quilómetros de cabos de cânhamo e linho trabalhados por autênticos exércitos de oficiais artesãos nos principais estaleiros das potências marítimas.



No caso do HMS Victory (navio de linha comandado por Nelson em Trafalgar), foram necessários mais de 2.000 troncos de carvalho para o casco e os três mastros, mas a qualidade da sua construção levou-o a ultrapassar a sua longevidade até aos dias de hoje. O navio elevava-se nos mares como autêntica plataforma de artilharia flutuante, ostentando 104 canhões e uma tripulação de 800 homens.

Precisamente um dos aspectos mais impressionantes da guerra naval nesta época prende-se com o notável poder de fogo embarcado e a eficaz logística da Royal Navy. Este facto foi realçado num estudo da década de 1980 (veja-se John Keegan, mais abaixo) através de uma comparação com a artilharia terrestre da mesma época.


Enquanto que o Exército do Norte francês a que Napoleão destinou a batalha de Waterloo em 1815 se fez acompanhar de um trem de 366 canhões de 6 a 12 libras de calibre, assistidos por 9.000 artilheiros, já a armada de 27 navios de Nelson em Trafalgar dispunha de 2.232 canhões, a partir de 12 libras de calibre até 68 libras, manobrados por nada menos de 14.000 homens.

Ou seja, o poder de fogo da marinha de guerra inglesa em Trafalgar excedeu a artilharia de Napoleão em Waterloo na proporção de 6 para 1; e se fosse necessária transportá-la por terra, teriam sido necessários perto de 50.000 artilheiros e 30.000 animais de carga, ao passo que a velocidade de transporte da artilharia na armada de Nelson era feito a 1/5 do custo logístico francês e 5 vezes mais rápido.

O HMS Victory encontra-se actualmente em doca-seca no porto de Portsmouth. Para quem quiser saber mais, existe um "site" sobre este navio e a sua carreira gloriosa.


História e Ficção




O filme "Master and Commander: the Far Side of the World" (2003, de Peter Weir), baseado na série de ficção histórica já clássica de Patrick O’Brian, trouxe ao grande écrã uma reconstituição particularmente intensa da vida a bordo nesta época, embora a acção não decorra em navios de grande porte.


Outros autores, como o historiador inglês John Keegan em The Price of Admiralty: the Evolution of Naval Warfare (1988), e mais recentemente, o brilhante investigador Nicholas Rodger, no 2.º volume da História Naval da Grã-Bretanha, The Command of the Ocean, 1649-1815 (2004), analisaram atentamente a vivência da guerra e as faces humanas dos conflitos navais ambos de leitura imprescindível não apenas pela sólida documentação como pelo deleite na boa escrita britânica.

Nelson, responsável pela vitória prenunciadora sobre os espanhóis na batalha do Cabo de São Vicente, ao largo do Algarve em 1797, tal como referi num “post” anterior (Novembro de 2003) conseguiu desfazer em Trafalgar o poder naval napoleónico.

Não admira, por isso, que decorridos apenas 2 anos, o exército francês invadisse apressadamente Portugal, em busca do melhor porto atlântico da Península e dos navios portugueses, última esperança para a defesa marítima do império francês face ao Bloqueio Continental imposto por Inglaterra. Mas esta é outra história, uma de muitas a ser publicadas nos dois próximos volumes da colecção “Batalhas de Portugal” da Editora Tribuna da História, da autoria do Comandante José Rodrigues Pereira, “Campanhas Navais, 1793-1807”. Uma boa leitura marítima.