terça-feira, agosto 14, 2012

O Fado das Sereias

Ilustração de Christian Birmingham, The Litle Mermaid (edição inglesa do conto de Andersen, 2009)


“Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar.
A filha mais nova era especial, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia”.

Assim se inicia, na atmosfera melancólica do Romantismo, um dos primeiros contos de Hans Christian Andersen (1836), apropriadamente intitulado A Pequena Sereia (ou, na nossa típica diminutivo-mania, Sereiazinha). Arquétipo bondoso das antigas beldades mitológicas híbridas, meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora.

Estudo em aguarela para ilustração dos Contos de Andersen. Walter Crane, entre 1870 e 1880 (Victoria & Albert Museum, Londres)

 As Perigosas Mulheres Voadoras

A bem da verdade, as primeiras sereias - sirenas -, popularizadas na Grécia Antiga, não eram particularmente atraentes. Deviam mesmo ser evitadas. 

Eternizadas por Homero (o grande educador da Grécia, enunciou Platão) e Virgílio, os seus leitores ficaram a saber que estas invulgares criaturas habitavam um punhado de idílicas ilhas mediterrânicas, próximas do Estreito de Messina entre a Sicília e a Península Itálica.





A estância de Positano defronte dos lendários ilhéus de Sirenuse, derradeira morada das sereias, que ainda no ano passado estiveram à venda por 195 milhões de euros (3 villas com 19 quartos, duas piscinas privadas e um heliporto à disposição de um qualquer Ronaldo)
Porém, estas ensolaradas ilhotas paradisíacas beijadas pelo mar cálido e abençoadas pelo fértil solo vulcânico guardavam histórias inquietantes.
As maléficas habitantes notabilizavam-se por irresistíveis dotes musicais que atormentavam os navegadores desprevenidos. 

Outro pormenor sobressaía dessas ilhas: estavam juncadas de ossadas humanas, restos das vítimas arrastadas pelas vozes sedutoras das sereias que os devoraram. Um perigo difícil de evitar, pois quem pode escapar àquilo que deseja?


A morada das sereias, tornada em formidável obstáculo marítimo, deixou o seu legado até hoje no diminuto arquipélago que ostenta a sua origem mitológica: os ilhéus Sirenusas (ou Galli) ao largo do Sul de Itália, de onde foram desalojadas pelas hordas de turistas anualmente despejadas na vizinha costa de Amalfi, Positano e Capri.
 

Sereia e leões no Parque Sacro Bosco ou Bosco dei Mostri em Bomarzo, final do séc. XVI (Viterbo, Itália)
A paternidade das sereias sempre foi problemática e diversamente atribuída. Uns queriam que fosse Forcis, divindade marinha pouco simpática com os navegadores - representava os perigos das profundezas marítimas -, ou, na versão mais bem sucedida, à união do deus-rio Aqueloo e da ninfa Calíope. Outros ainda afirmavam terem as temíveis sereias brotado do próprio sangue derramado por Aqueloo após a sua derrota às mãos de Hércules. A genealogia não ajuda, pela falta de clareza dos seus progenitores.





Cílice em cerâmica do séc. VI a.C. (Walters Art Museum, Baltimore)

Quanto ao pormenor genético que originalmente as distinguia, as asas - ou o corpo - de ave, os autores mais antigos também não concordam.

Segundo Ovídio (Metamorfoses), as sereias teriam ganho asas em resposta à súplica aos deuses para procurarem a bela Perséfone (romana Prosérpina), que acompanhavam quando esta foi raptada pelo deus do infra-mundo e governante do mundo dos mortos Hades (romano Plutão). Outra versão estabelecia que se tratava de uma punição infligida pela deusa Deméter (romana Ceres) por não terem impedido o rapto da jovem Proserpina sua filha.



Ulisses sendo atraído pelas sirenes, ou mulheres-aves, segundo Pietro Aquila, Monstra maris Siculi frustra dulcedine cantus (entre 1675 e 1690) Biblioteca Nacional Digital

O que é certo é que as línguas nórdicas retiveram a distinção entre as sereias (sirens) originais e as posteriores mutações mitológicas em donzelas do mar (inglês mermaid ou alemão seejungfrau, por ex.), literalmente.

Já para o comum homem medieval, tudo o que viesse à rede com tronco de mulher e cauda de peixe só podia ser sereia, sem penas.


De Aves a Peixes
A entrada das sereias no mundo marinho deve-se a Ulisses, o bravo rei de Ítaca que , na noite dos tempos, teria fundado Lisboa e ainda desnorteado um bando de sirenas a tal ponto que estas, de tão desesperadas, se lançaram no mar.

Este episódio, seguramente o mais célebre da longa vida das sereias, foi amplamente ilustrado na Grécia Antiga, demonstrando o estratagema eficaz com que se anulou o canto funesto das mulheres-aves: Ulisses tapou os ouvidos com cera de mel e fez-se amarrar ao mastro do seu navio  para atravessar a melodia mortal. 

Ulisses e as sereias. Vaso ateniense, séc. V a.C. (The British Museum, Londres)

Com o passar dos séculos e a mudança das mentalidades ocidentais, o mito das sereias evoluiu.

Eminentemente sedutoras, povoaram o recatado imaginário medieval nas páginas de inúmeros manuscritos pacientemente compilados (são mesmo muito sucintamente mencionadas no Nome da Rosa de Umberto Eco, entre os "perigosos" exemplares da sinistra abadia). Provavelmente o mais conhecido  bestiário terá sido o «Liber Monstrorum de Diversis Generibus», do séc. VIII (edição italiana online). Desta obra exaustiva das espécies bizarras, agrupando seres reais e imaginários, destaca-se a sereia.

Embora esporadicamente representada na Antiguidade na sua configuração marinha, a sereia tal como a conhecemos hoje só adquiriu definitivamente a emblemática cauda de peixe na Idade Média.

Sereia com espelho, instrumento de vaidade e da ilusão. Manuscrito inglês, séc. XV. Daqui

A ascensão do Catolicismo ajudou a transformar estas criaturas em fruto proibido, cuja beldade enganadora, símbolo da tentação, constituiu uma apropriada representação do Mal aos olhos da Igreja. As sereias notabilizam-se como derradeira personificação feminina da volúpia e símbolo do pecado.



A viagem de São Brandão, c. 1460, e Konrad von Megenberg, «Buch der Natur», cópia de 1460 sobre o original de meados do séc. XIV (ambas na Biblioteca da Universidade de Heidelberg)

No Antigo Testamento, o profeta Isaías anuncia a dança das sereias nos templos do prazer de Babilónia, após a destruição desta cidade da perdição (Isaías, 13,21).


A dimensão da perdição nas sereias não se perde com o Renascimento. O tratadista milanês Andrea Alciato, pioneiro no género literário dos emblemas morais, incluiu as sereias como símbolos da impudícia e da lascívia (emblema 115 da edição de 1591).

O fascínio cresceu lentamente na Idade Média e conheceu o auge da sua difusão no Renascimento. Na História da Arte europeia, a perigosa beleza cativante destas mulheres aquáticas ganhou expressão notável como ícone da cultura popular medieval - apenas rivalizada pelo dragão.

De facto, “os animais fantásticos mais representados no Românico Português são os dragões e as sereias”.


Jacob Meidenbach, Hortus Sanitatis (1491)


Episódio da Eneida de Virgílio; a deusa Cibele intercede em favor dos troianos cercados em Itália, transformando os seus navios em sereias e assim salvá-los da destruição iminente pelos romanos (edição alemã, 1517)

Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum (1570)



A invenção da imprensa e o desenvolvimento da cartografia permitiram divulgar massivamente as imagens revistas e actualizadas das sereias "modernas".

Na primeira metade do séc. XVI, o naturalista suíço Conrad Gesner e o cirurgião francês Ambroise Paré estiveram entre os primeiros autores de referência.

Fixaram, respectivamente, no Vingt cinquième livre traitant des monstres et prodiges (Paris, 1573; edição online de 1585) e no Historiae Animalium (Zurich, 1551-58), algumas das imagens mais populares destes seres dissimulados.

Assim, as sereias acabaram por se multiplicar, aplicadas a uma imensidade de suportes e recantos arquitecturais, imiscuindo-se e animando uma profusão de espaços, incluindo os insuspeitos templos religiosos.

Um dos exemplos mais surpreendentes encontrou lugar destacado na remota igreja de Saint Senara, em Zennor, na Cornualha. A cadeira é obviamente antiga, mas a lenda da Sereia de Zennor apenas surgiu no saudosista século XIX. Uma bela desconhecida chegou um dia para ouvir - numa curiosa inversão de papéis - um virtuoso cantor do coro da igreja local. Ao fim de algumas visitas dominicais, atraíu-o consigo para o mar. Nunca mais foram vistos. Mas dizem que ainda hoje em Mermaid Cove (Enseada da Sereia), se escutarmos com atenção, podemos ouvir nas noites de Verão o cântico dos amantes por entre o marulhar das ondas.




Cadeira da Sereia de Zennor. Igreja de Saint Senara, Cornualha (foto de Tom Oates)

Dir-se-ia que as sereias encontraram novas casas, numa ironia histórica, em coabitação com os mesmos religiosos que as definiam como obscenas e traiçoeiras.



Cadeiral, c. 1487. Colegiada de Sant'Orso, Aosta (Itália) (daqui)


Igualmente companheiras de guerreiros, ou não fossem elas mesmas temíveis adversárias.


Borguinhota de parada (Filippo Negroli, 1543). Metropolitan Museum, Nova Iorque

No fundo, o proibido sempre atrai. Nestes seres confluem o sagrado e o profano, erudito e popular, o quotidiano e a lenda, numa série de referências históricas ancestrais que não se confinam ao etéreo imaginário. Lá que elas existiam existiam, pois... 

Tanto assim foi que algumas representantes desta espécie exótica ganharam dimensão eterna. Pelos emarados caminhos míticos do Velho Mundo, dois espécimens de importância singular sobressaíram como protectoras dos humanos.

Brasão da cidade de Varsóvia, ostentando a sua protectora marinha
A sereia-guerreira nórdica, símbolo heráldico da cidade de Varsóvia - a Warszawska Syrenka -, vinda das profundezas do Mar Báltico (acompanhada pela sua irmã que decidiu acomodar-se no famoso rochedo dinamarquês onde ainda hoje a podemos contemplar), e a bizarra lenda trágico-amorosa de Mélusine, a fada-sereia fundadora e protectora da ilustre Casa de Lusignan, no Poitou (centro-Oeste da França), conciliando diversos elementos, a Água enquanto sereia, a Terra, enquanto serpente e o Ar enquanto ave, compondo um medonho animal compósito. Mélusine sofre por amor, após o seu marido ter descoberto a sua natureza insuspeita.

Desde então vagueia sob a forma de criatura fantástica, regressando apenas de noite para amamentar os seus filhos e sobrevoa o castelo de Lusignan nas vésperas de acontecimentos importantes. A lenda, fértil em leituras subliminares, tal como as sereias, depressa ultrapassou fronteiras e rapidamente se adaptou a outras línguas através da Europa.

A fada-sereia Mélusine, uma das lendas mais bem sucedidas da França medieval, da autoria de Jean d'Arras (1393).
 Condenada a manter em segredo dos humanos a maldição da sua metamorfose em ser alado com cauda de peixe, até ao fim da sua vida.  


Brasão dos senhores do castelo de Ainay-le-Vieil, ladeado por duas sereias, evocando a lenda de Mélusine, séc. XVI.
 Pormenor da lareira do castelo, no vale do Loire


Baixo-relevo nas ruínas do castelo de Lusignan, Poitou

A improvável ligação entre a linhagem Lusignan e a Starbucks ocorreu em 1971, quando a empresa multinacional de cafés norte-americana adoptou o famoso símbolo da sereia renascentista, progressivamente estilizado.




Entre nós, nação bastante marítima, surgem retratadas numa imensidade de suportes surpreendente. Não foi o caso, porém, da literatura. Apenas Camões (Canto X, estâncias 5 e 48) alude à "voz angélica das sirenas", cujo canto deveria louvar então os feitos marítimos dos portugueses.

Letra "s" na Grammatica da Lingua Portuguesa de João de Barros (1540)

Tanto quanto sabemos, os portugueses não embarcaram nessas histórias. Estarim provavelmente demasiado entretidos com outras arrebatadoras realidades exóticas que desfilaram perante os seus olhos desde a Guiné ao Brasil, à Índia e ao sudeste asiático, até alturas do Japão.

Não faltam porém, diversos exemplos evocativos das misteriosas sereias.

Lá estão entre os dispersos frescos zoomórficos das casas pintadas, em Évora (actualmente sede da Fundação Eugénio de Almeida), da primeira metade de Quinhentos.
Frescos das Casas pintadas, Évora, primeira metade de Quinhentos (actual sede da Fundação Eugénio de Almeida)

No Palácio Nacional de Sintra, emprestam o nome à Sala das Sereias, ou da Galé, representadas nos paineis de madeira que decoram o tecto da antiga  residência régia de Verão.

Sala das Sereias, ou da Galé, final do séc. XVII (Palácio Nacional de Sintra)

Mas também nos templos religiosos, ocupam lugares destacados nos cadeirais onde se amparavam os monges, no ornamento de altares, capitéis e portais de igrejas e conventos.

Aqui insistem em figurar, por exemplo, num capitel da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Elvas, erguendo a cruz de Cristo,...


...às mais enobrecidas que suportam a esfera armilar e o escudo de Portugal, símbolos régios, numa das mísulas do Convento de Cristo.


Também as famílias mais abastadas, como os Portocarrero, no Porto, as colocaram em evidência como monumentais guardiãs no portal do Palácio das Sereias, palacete dos meados do séc. XVIII.

Daqui
Mais a norte, no Distrito de Bragança, as sereias figuram desde Setecentos na Fonte com o seu nome.

Fonte das Sereias, em Carrazeda de Ansiães, séc. XVIII

As lendárias criaturas aquáticas não poderiam estar muito afastadas do seu elemento. Protegidas no interior da igreja, ganham relevo adicional numa cidade marítima como Vila do Conde. Como que a redimir-se da sua natureza maléfica, surgem associadas desta vez à água benta.
Pia baptismal, Igreja Matriz de Póvoa de Varzim, meados do séc. XVIII
Atravessando o Atlântico, instalaram-se desde 1779 como ornamento nos altares da capela do Santíssimo Sacramento, figurando no conjunto monumental do Convento de Santo Antonio e da Igreja de São Francisco em João Pessoa, capital da Paraíba, cidade desenvolvida entre o rio e o mar .
Sereia oitocentista nos altares da Igreja de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba (foto Leonardo de Oliveira)
Encontros imediatos aquáticos

Das mais variadas latitudes surgiram relatos de encontros imediatos com as sereias. Alguns deixaram - insistiam os seus autores - testemunhos inequívocos da sua existência. As terras e mares distantes revelavam aos poucos os seus habitantes mais originais aos exploradores. 

Gravura de Theodor de Bry (1628)
(Centre for Newfoundland Studies - Universidade de Newfoundland, Terra Nova, Canadá)

No prefácio ao relato do navegador Richard WhitbourneA Discourse and Discovery of New-Found-Land (1620), dá conta de um encontro em 1610 no porto de São João da Terra Nova, futuro Canadá. 

Louis Renard, «Poissons, Ecrevisses et Crabes» (1718) (Universidade de Glasgow)
Em 1718, o francês Louis Renard publicou em Amsterdam uma colecção ilustrada de desenhos científicos intitulada Poissons, Ecrevisses et Crabes: de diverses couleurs et figures extraordinaires, que l'on trouve autour des Isles Moluques, et sur les côtes des Terres Australes, onde incluiu um exemplar de sereia, capturada próximo de Amboino, no arquipélago das Molucas (actual Indonésia) que sobreviveu quatro dias e sete horas numa bacia com água. O testemunho foi obtido, juntamente com desenhos originais entre 1705 e 1715, de funcionários da Companhia das Índias Orientais holandesa.

Sereia nipónica, 1805. Waseda University Theatre Museum (Tóquio)

Décadas mais tarde, em 1805, e mais a Oriente, uma outra sereia, foi alegadamente recolhida na Baía de Toyama. Bem menos atraente, de acordo com o texto, tal criatura mediria 10,6 metros.

Se a imaginação humana não conhece limites, as sereias foram um constante desafio. Afinal, "os bichos também se inventam, de acordo com os sonhos mais caros”, dizia a Lhama Bailarina na  curiosa Zoologia Bizarra do poeta carioca Ferreira Gullar (Prémio Camões 2010).

Desenganem-se os que crêem que as sereias levam vida fácil. Para chegarem até hoje, terão sobrevivido a oligarquias, monarquias, repúblicas, às grandes revoluções e às guerras mundiais.

Contra todas as probabilidades, atormentadas pelos deuses antigos, superadas por Orfeu e Ulisses, depois condenadas pela moral cristã, ultrapassadas e dissecadas pela ciência das Luzes, as sereias sobreviveram. Não consta que algum especialista se tenha debruçado sobre os efeitos das alterações climácticas  ou das marés negras nestes seres delicados. A prova do seu sucesso: incorporam as suas histórias no mundo actual, principalmente na arte.
"Sereia" como atracção de feira de bizarrias japonesa, séc. XIX (daqui)

Os séculos XVIII e XIX são já pouco dignos para com as criaturas marinhas. O espectáculo das feiras ambulantes de bizarrias no Japão (misemono), com digressões pelos Estados Unidos e na Europa em respectivos freak shows, eram habitualmente protagonizados por sereias, supostamente originárias do Japão e das Índias Orientais.  De um dia para o outro, multiplicaram-se os "achados" de "sereias" por pescadores nipónicos. Alguns exemplares mais evoluídos possuíam, pois claro, o dom da fala.

Apesar da sua malícia, ou precisamente devido a ela, não deixaram de ser apreciadas ao longo da História. Porém, chegado o século XIX, a época Romântica deu uma contribuição decisiva na transformação das sereias em criaturas adoráveis. Continuaram a fascinar os mortais, cada vez mais jovens e já sem malícia.


Ilustração de Edmund Dulac (edição inglesa dos Contos de Andersen de 1911)


Mermaid, John William Waterhouse (1900) (Royal Academy of Arts, Londres)

Den lille havfrue (a Pequena Sereia), de Andersen, por Edvard Eriksen, 1913 (Copenhaga)

Disney Animation Studios (1989, relançado em 1997)

O século XX viu nelas uma potencial fonte de receitas muito apreciável e assim se conciliou o útil com o agradável. Até surgir o momento da "verdade". É que o canto das sereias terá terminado recentemente.

O silêncio das sereias?



Tudo isto para colocar a questão transcendental: para onde foram as sereias? e porque nao ouvimos o canto delas?

Será que a moderna sociedade de ruídos e bombardeamentos audiovisuais abafou as celebradas criaturas misteriosas que outrora prosperavam nas imaginações enamoradas dos marinheiros e nas páginas de entusiásticos contadores de histórias, numa tradição milenar que remonta a Platão e que tentaram arrastar Ulisses, intrépido navegador e lendário fundador de Lisboa, para a sua perdição?

A questão secular ressurgiu em Maio passado, no país do costume. O canal Animal Planet, da Discovery Channel, apresentou "Mermaids: The Body Found", um documentário acerca da existência de sereias, carregado de efeitos especiais que se propõe retratar "um retrato bastante convincente da existência das sereias, da sua provável aparência e porque permanecem escondidas", nas suas próprias palavras. Em letrinhas minúsculas, adverte-se vaga e confusamente que o programa partiu de acontecimentos reais e de "teorias científicas". 

Este entusiasmo e as belas imagens geradas por computador foram o suficiente para criar a polémica. Conjecturando acerca de um hipotético estágio evolutivo apelidado de "símio aquático", as expectativas das mentes mais susceptíveis pareciam ter aqui o substrato de que necessitavam. Não terá sido grande ideia, dado que quase metade dos norte-americanos negam a Teoria da Evolução. Enquanto uns continuam a defender convictamente a existência de sereias, outros foram mais longe e apontaram provas arqueológicas do temível cefalópode gigante Kraken (que afinal não passam de vértebras de ictiossauro), equívoco prontamente desfeito pela National Geographic Society. 

A comunidade científica não tardou em questionar a "ciência" do documentário. As discussões incendiaram a internet e prosseguiram o tempo suficiente até perderem a novidade. Mas, perante a enxurrada de emails de cidadãos crédulos com que foi assediada, a própria administração oceanográfica norte-americana, NOAA (a NASA dos mares) viu-se forçada a emitir esta inédita, mas algo óbvia, declaração oficial à população: lamentamos, mas jamais foram encontradas evidências de humanóides aquáticos.
 

Resta o consolo de  vestir uma cauda de peixe, como a nadadora e modelo australiana Hannah Fraser, que, inspirada pelo filme Splash, mergulha nos mares para nadar com baleias, golfinhos e tubarões em defesa do oceano e dos ambientes marinhos.

Claro se torna ser impossível apagar estas Atlântidas literárias.  Nem as maiores montanhas de água, nos vastos e ainda muito pouco conhecidos oceanos, conseguem diluir o imaginário ancestral.


Mesmo submersas e silenciosas, as sereias permanecerão para sempre inspiradoras.

Para ver melhor:
A não perder, esta magnífica galeria fotográfica de sereias provenientes de monumentos e templos de toda a Europa.

Outra galeria de sereias em desenhos e iluminuras.

Ainda insatisfeitos? outra extraordinária compilação de sereias medievais.


Para saber mais:

Mitologia grega

Sereias gregas (no sítio do costume)

Sereias tal como as "conhecemos" (idem)

segunda-feira, agosto 06, 2012

Em Busca do Oceano Perdido no Planeta Vermelho




Primeira foto (roda traseira e zona de pouso) captada pelas câmaras de navegação da Curiosity em Marte
(NASA/Jet Propulsion Laboratory-Caltech)

 - «Touchdown confirmed»!
Por volta das 06:32, a Sala de Controlo do Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena exultou. Confirmou-se mais um feito espacial. 

Bem longe da Califórnia, a uns 225 milhões de quilómetros da Terra, algures no interior da Cratera de Gale, aterrou - ou melhor, amartou - o robô-explorador Curiosity, o maior e mais complexo veículo de exploração planetária jamais concebido pelos terráqueos. Apesar de ser a terceira viatura deste género enviado ao planeta vermelho, nada tem de rotineiro, sobretudo tendo em conta que cerca de dois terços de todas as missões enviadas a Marte falharam.



Após mais de 8 meses de viagem espacial, iniciam-se hoje pelo menos dois anos de missão vital no quarto planeta a contar do Sol. O laboratório motorizado irá avaliar potenciais vestígios de vida microbiana, mapear concentrações aquíferas na superficie de Marte, medir e identificar fontes de radiação locais. Dados valiosos antecipando a futura exploração humana. 




 Simulações do oceano primordial marciano, hoje inexistente

Vestígios concretos da existência de água foram confirmados no final de 2011 pelo veículo Opportunity e de um oceano marciano primordial no início deste ano pela sonda Mars Express (que também ajudou às manobras de aproximação da Curiosity) da Agência Espacial Europeia. O Oceano marciano - que ainda não possui nome - terá contido o equivalente a um décimo de toda a água dos oceanos terrestres. 

Segunda foto enviada pela Curiosity (sombra do robô no solo marciano) NASA/Jet Propulsion Laboratory-Caltech
As primeiras imagens captadas pelo veículo revelam o sucesso da aterragem. A sombra marciana da Curiosity mostra-nos o terreno plano à sua volta. Os clichés mais espectaculares surgirão dentro de dias, quando as câmaras de alta definição forem accionadas. A partir de agora, a NASA disponibiliza aqui o álbum de imagens marcianas da Curiosity

Estas animações virtuais dão-nos uma ideia da chegada do veículo a Marte:




A Google também possui um mapa digital interactivo do planeta vermelho para caminheiros extra-terrestres.

Mais notícias actualizadas e em directo no Canal da NASA.

Com este sucesso prepara-se a chegada de um novo Armstrong (que festejou ontem 81 anos), digno sucessor de um Bartolomeu Dias ou de Vasco da Gama. Mostrar "novos mundos ao mundo", como escreveu Camões há quase cinco séculos e meio, nunca foi tão actual. Desta vez explorando "novos" oceanos num outro planeta...

terça-feira, julho 31, 2012

O «Inafundável» Titânico Revisitado

Lá no fundo



...a 3.700 metros sob as frias águas do Atlântico Norte  repousam os testemunhos silenciosos de um dos maiores desastres marítimos do século XX. Naufragado em 1912 na fatídica viagem inaugural e redescoberto apenas em 1985, o "insubmersível" Titanic mantém uma aura de mistério.



Na celebração dos 100 anos deste acidente em Abril [nota: este blog não segue o moderno (des)acordo ortográphico] passado, ocorreram várias iniciativas que nos proporcionaram novos olhares sobre o histórico naufrágio.~
Localização das duas secções principais dos destroços - vante e ré - distanciadas 600 metros entre si
As mais recentes - e magníficas - fotos dos destroços foram publicadas na revista National Geographic revelando o estado actual do outrora grandioso navio de cruzeiro.

As fotos feitas em Agosto e Setembro de 2010 pela Woods Hole Oceanographic Institution com tecnologia sofisticada captaram as imagens mais completas e definidas jamais vistas do navio. Foram necessárias mais de 10.000 imagens de alta resolução corrigidas por sonar realizadas pela RMS Titanic Inc., empresa actualmente detentora do Titanic, para compor estes inéditos mosaicos fantasmagóricos.





No documentário do Canal História, Titanic at 100: Mystery solved, o navio foi literalmente erguido à superfície para satisfação da curiosidade dos terráqueos . Novas interpretações do desastre foram divulgadas e apresentou-se o primeiro mapa detalhado do local de naufrágio e da reconstituição actualizada dos últimos momentos do navio.



Viagem Virtual às Profundezas

Por seu lado, a Google preparou uma visita interactiva ao alcance de todos, utilizando um modelo 3D dos destroços criado com as imagens recolhidas pela National Geographic Society, que permite explorar as diferentes secções do navio.

Basta activar a camada 3D do Google Earth (aplicação Ocean), descarregar  este ficheiro da Google e digitar “Titanic” no campo de pesquisa.  




Para os mais curiosos, aqui ficam as coordenadas GPS da proa do Titanic: 41º43'57" N, 49º56'49" W.

Mais detalhes sobre esta e outras excursões submersas virtuais aqui:


As digressões submarinas "googleanas" abrangem outros naufrágios históricos, como o couraçado alemão Bismarck afundado em 1941 após uma perseguição épica pela Royal Navy

Bons mergulhos.

terça-feira, julho 24, 2012

Do Massivo Mundo Líquido

Tédio em Terra? Maravilhe-se no Mar.


Imaginar-se na prancha do havaiano Garrett McNamara em Novembro de 2011 na Praia do Norte, Nazaré, com a monumentalidade com que surfou na ZON North Canyon 2011 a maior onda navegada do Mundo, é esmagador.



Perto de 24 metros (um prédio de 5 andares) convertidos num momento marítimo icónico. Confirmado e documentado pelos entendidos em big waves  do Billabong XXL Global Big Wave Awards, e aprovado no Livro do Guinness World Records, o triunfo foi dedicado pelo norte-americano à vila marítima da Nazaré.

A histórica vila de pescadores, encravada entre o massivo promontório do Sítio e um vertiginoso vale submarino (o mais profundo da Europa) que atinge os 5.000 metros, proporciona ondulação gigantesca consistente para torná-la num dos melhores spots mundiais do surf de "grandes ondas".


Efémero momento, temporariamente erguidos numa muralha de água sobre o turbilhão em que nascemos e a que estamos condenados. Recobrados os sentidos, resta-nos admirar as imagens impressivas que a Natureza nos oferece sem condições. Nada melhor do que desfrutar de uma das maiores energias deste planeta ainda em condições.

segunda-feira, junho 18, 2012

Amazoneando


1886, Amazónia. Início de Verão no imenso Brasil tropical, sob o governo imperial de Sua Majestade D. Pedro II.



O local: o “encontro das águas” poderosas do Rio Solimões – que daí em diante ganha nome de Amazonas -e do Rio Negro, o seu maior afluente.


Não, não é um livro que demora anos a ler, nem sofre de um exército de notas. É para a juventude. O acaso fez com que esta história me parasse na mesa de leitura e aqui fica o exemplo: divulgar História não tem idade. Sobretudo, bem orientada pela bússola da autora de escrita viva, envolvente e informativa para todos.

Bernardo de Bourbon, protagonista imaginário da aventura, tenta descobrir quem são as misteriosas Amazonas na infindável selva e qual o tesouro que as lendárias mulheres guerreiras tão ciosamente guardam.



Rodeados pela força serena da natureza, uns quilómetros acima da confluência do Atlântico com o rio mais extenso do planeta. Entre a luminosa atmosfera húmida e a densa vegetação exuberante, conhecemos as tribos nativas e os seus rituais esotéricos. O leitor percorre a buliçosa e colorida Manaus colonial, passeia de barco – tal como a autora - pelos rios Negro e Amazonas e desfruta o exótico pequeno-almoço (café da manhã) de ricos sabores.


Seguem-se os passos de personagens históricos, como o botânico e etnógrafo João Barbosa Rodrigues – que transcreveu a lenda Tupi da Senhora da água, Iara ou Yara, a mais bela mulher das tribos que habitavam as margens do Amazonas, transformada em sereia pela maldade dos homens, a quem passou a atormentar, arrastando-os para as profundezas aquáticas - na sua missão científica que o levará a dirigir o primeiro Jardim Botânico de Manaus e a dirigir em seguida a mesma instituição no Rio de Janeiro (actualmente um dos ex-libris da Cidade Maravilhosa ). Rendido ao mito imemorial das amazonas, dedicou-lhes um estudo onde as descreve como "Virgens Sagradas" (entre outras obras históricas de interesse).

Gravura adaptada da obra pioneira de André Thevet, Singularités de la France Antarctique (1557) [tradução moderna aqui],
mostrando "como as amazonas tratam aqueles que cativam"
 Fonte inesgotável de utopias e fascínios, o El Dorado perdido na selva que dominou tantas imaginações europeias no Renascimento e arrastou tantos exploradores para a perdição. Não por acaso, a lenda das amazonas foi frequentemente associada ao mito do Eldorado, em cujas vizinhanças elas supostamente viveriam.


Lendas, costumes indígenas e curiosidades várias na época da abolição da escravatura transmitidas pela hábil narradora, que nos convida a reviver esse final de Oitocentos. Numa palavra: refrescante.


Eu cada vez mais me lembro de que nós já fomos isto tudo, misto de mar, mito e maravilha.
É bom lembrar. De preferência com o pé na água, naquelas e noutras terras quentes temperadas pelos imensos mares que nos aproximaram.

“Bernardo e o Enigma das Amazonas”.
Da Flávia Reis, publicado pela Editora Callis (São Paulo)
Obra incluída na selecção da Feira Literária Internacional de Paraty (Rio de Janeiro)

segunda-feira, setembro 19, 2011

Angra do Heroísmo, achados e perdidos





Treze anos depois do seu salvamento improvisado, o segundo maior achado de arqueologia naval do século XVI-início do século XVII no Atlântico (logo a seguir a Red Bay, no Canadá) jaz, abandonado, no sopé do Monte Brasil, arrumado a um canto da deslumbrante baía de Angra do Heroísmo.


Seguramente, o estaleiro arqueológico subaquático mais desperdiçado do Mundo ocidental.

domingo, julho 05, 2009

Mar, Mitos e Máquinas I

A Arca de Noé

Gravura da Bíblia de Nuremberga (edição de 1570)

Arca de Noé nos vitrais da igreja de Saint Étienne du Mont, c.1600

O episódio bíblico narrado no Génesis descreve como Deus castigou a maldade do Homem destruindo toda a sua criação. Ou melhor, quase toda. Apenas Noé e a sua família, graciosamente poupados à ira divina, obtiveram o tempo necessário à recolha de um casal de espécimens de cada animal da Terra a bordo da fabulosa Arca flutuante construída entretanto pelo humilde artesão. Assim teriam sobrevivido ao Grande Dilúvio para repovoarem o planeta.


“Forma exterior arcae Noë ex descriptione Mosis”, s.d. (1590-1650?)
Biblioteca Nacional de Portugal

O mito fundador do Dilúvio comum às principais religiões suscitou no mundo ocidental uma singular busca de interpretações, de modelos construtivos e da própria localização da mítica nave.

Gravura cosmográfica de nova casa do Zodíaco (Arca de Noé), inserta na obra de Julius Schiller, Coelum Stellatum Christianum (Augsburg, 1627).

Fonte inesgotável de inspiração artística, a Arca construída por Noé deu lugar inclusivamente uma tentativa de renomeação de uma constelação do zodíaco num atlas seiscentista dedicado ao Céu Estrelado Cristão.


Provavelmente a mais famosa representação do episódio encontra-se retratada na Capela Sistina, no fresco monumental de Michel’Angelo Buonarroti datado de 1509.

Também motivou diversas composições artísticas, como estas duas colecções de gravuras quinhentistas holandesas

Em 1609, Peter Jansen, um obscuro carpinteiro naval holandês, construiu aquilo que acreditava ser uma autêntica réplica da Arca através das indicações contidas na Bíblia.



A reconstrução da arca bíblica ocupou mentes ociosas, tais como a de John Wilkins, Bispo de Chester. Recorrendo a cálculos improváveis, este erudito religioso asseverou a capacidade da Arca em transportar a quantidade desmedida de animais encomendada a Noé. Fez até prova disso no seu livro Essay Towards a Real Character, and a Philosophical Language (London, 1668) , onde se inclui mais uma representação da mítica embarcação, embora mais à maneira de estábulo flutuante.



Porém, em questão de escala, ninguém superou os incansáveis chineses, que terminaram muito recentemente uma réplica megalómana (e comercial, pois alberga um hotel de luxo) nos arredores de Hong Kong.

Para saber mais acerca das interpretações da arca de Noé ao longo da História, consultem-se uma e outra cronologia concisas e bem ilustradas.

terça-feira, junho 09, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (IV)

Desfecho e Consequências


Anthony Wingfield, A trve coppie of a discourse written by a gentleman, employed in the late voyage of Spaine and Portingale... (London, 1589). Exemplar na Kraus Collection of Sir Francis Drake, actualmente na Biblioteca do Congresso (Washington DC). Outro relato, em latim (na mesma colecção): Ephemeris expeditionis Norreysij & Draki in Lusitaniam (London, 1589)

Em Inglaterra, a Rainha Isabel não poupou Drake pelo fracasso da expedição, sobretudo pela incapacidade em forçar a barra do Tejo para se reunir às tropas de Norris. Em resultado, o famoso corsário e almirante inglês cumpriu um desterro da Corte isabelina - e dos mares - durante 6 longos anos. Drake comprometera o resultado da grande armada inglesa e mostrara indisciplina face às ordens da Rainha no cumprimento dos objectivos. Ele e Norris foram incapazes de se justificar perante o Conselho Privado da Rainha das acusações de desvio dos objectivos previstos em proveito próprio. A destruição dos navios sobreviventes da "Invencível" Armada refugiados sobretudo no porto de Santander não foi cumprida.

A expedição de 1589 poderia ter sido decisiva na Guerra Anglo-Espanhola. A reconquista de Lisboa teria obrigado Filipe II a desviar tropas de outras frentes de guerra e poderia ter levado À negociação de tréguas segundo condições inglesas. De posse desta importante base naval e centro marítimo, a Inglaterra beneficiaria da colaboração das forças navais portuguesas garantindo, a curto prazo, o domínio dos mares e ameaçando seriamente os circuitos comerciais transatlânticos da Monarquia Hispânica. Contudo, a falta de preparação das tropas e de material, aliados à dissociação de interesses da Coroa e dos particulares que ajudaram a financiar a expedição a Portugal, ficaram patentes os limites de acção do emergente poder naval inglês.

Para o fracassso contribuiram, para além das negligências individuais dos comandantes, as crónicas insuficiências logísticas comuns às armadas ingleses desse período. Criara-se um equilíbrio de forças momentâneo no Atlântico, pois a Espanha ainda recuperava do fracasso da "Invencível" Armada de 1588 e reconstruia as suas forças navais. A guerra no mar contra Filipe II recrudesceria na década seguinte sobretudo com recurso aos navios corsários navegando sob bandeira de D. António contra a marinha mercante ibérica. Mas o receio inglês de novas grandes armadas espanholas continuou tão vivo como em 1588.

A própria questão do fortíssimo antagonismo religioso entre Católicos e Protestantes havia sido correctamente previsto pelo líder espiritual da Revolta dos Países Baixos (Philippe Marnix de Sainte-Aldegonde), ao recusar o convite de D. António para integrar a expedição e estabelecer a liberdade de culto em Portugal, invocando as inevitáveis animosidades e fortes desconfianças dos católicos portugueses.



Isabel I de Inglaterra e Filipe II de Espanha (I de Portugal) protagonizaram uma escalada militar que culminou na Guerra Anglo-Espanhola. As armadas espanhola e inglesa defrontaram-se entre 1585 até à morte de ambos os monarcas. Embora a "Invencível" (ou Grande) Armada de 1588 tenha sofrido um sério revés, o poder naval espanhol conseguiu recuperar e reformar-se, prolongando a guerra no mar até ao início de Seiscentos. Pintura da rainha inglesa atribuída a George Gower, 1588 (National Portrait Gallery, Londres) e do monarca espanhol por Alonso Sánchez Coello, c.1570 (Pollok House, Glasgow)

Filipe II de Espanha (D. Filipe I de Portugal) manteve, através do Vice-Rei Alberto de Áustria, o controle firme de Lisboa e do território português. As grandes armadas espanholas mantiveram a Inglaterra em alerta mesmo após a derrota da "Invencível" Armada de 1588. O seu principal adversário português, D. António Prior do Crato perdeu todas as batalhas contra as forças espanholas, desde Alcântara (1580) até até à derradeira batalha de Lisboa (1589).

Numa das suas derradeiras cartas à Rainha Isabel I, D. António prometia não desistir de regressar a Portugal e procurou auxílio junto do Rei Henrique IV de França, mas sem sucesso pois não passou da fase de planeamento. A 26 de Agosto de 1595, dois dias antes da partida última expedição de Drake, D. António morreu em Paris na miséria. O seu conhecido e apoiante já idoso e apelidado pelos espanhóis de "Francisco Draque el viejo" morreria pouco tempo depois, em Janeiro de 1596 a bordo do seu navio no Mar das Caraíbas, onde iniciara a sua longa luta contra Espanha. Finalmente, no ano seguinte, o General Sir John Norris, último dos três protagonistas da expedição de 1589, já enfraquecido pela doença no regresso de Portugal, sucumbiu às velhas feridas de guerra na Irlanda.


Amigos de Peniche?

A história da expedição inglesa de 1589 padece ainda hoje de uma herança enganosa e redutora. Segundo alguns autores do séc. XX, a expressão popular amigos de Peniche deve a sua origem à falta de apoio dos ingleses no regresso de D. António a Portugal, numa acepção pejorativa de falsos amigos apenas interessados em saquear. Contudo, apesar de os ingleses terem retirado sem conseguirem de facto ajudar a causa de D. António, a origem da expressão não terá sido, até prova documental em contrário, contemporânea da expedição ou sequer relativa à mesma. Mais provavelmente, terá que ver com o desembarque das forças liberais em 1833 (aproveitando a fuga da guarnição do partido absolutista), consumado com actos de vandalismo e agressões a populares, atingindo sobretudo as igrejas, mutilando imagens e altares.


Fontes Publicadas

HAKLUYT, Richard, The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Navigations of the English Nation, London: The Hakluyt Society, vol. VII (London: 1907).

LIMA, Durval Pires de, "O ataque dos ingleses a Lisboa em 1589 contado por uma testemunha...", in Lisboa e seu Termo: Estudos e Documentos, Associação dos Arqueólogos Portugueses, vol. I (Lisboa: 1948).

Memorial de Pero Roiz Soares (1565-1628), publicado por M. Lopes de Almeida, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1963.

WERNHAM, Richard B. (ed.), The Expedition of Sir John Norris and Sir Francis Drake to Spain and Portugal in 1589, Aldershot: 1988.


Estudos Principais

CAEIRO, Francisco, O Arquiduque Alberto de Áustria, Vice-Rei e Inquisidor-mor de Portugal, Cardeal Legado do Papa, Governador e depois Soberano dos Países Baixos, Lisboa: edição do autor, 1961.

CASTRO, José de, O Prior do Crato, Lisboa, 1942.

MacCAFFREY, Wallace T., Elizabeth I: War and Politics, 1588-1603, Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1994 (2.ª ed.).

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, col. Batalhas de Portugal - 19, Lisboa: Tribuna da História, 2005.

VAZ, João Pedro e FONSECA, Luís Falcão da, "Sir Francis Drake and the «Poor King» D. António: the Portugal Voyage of 1589", in The British Historical Society of Portugal 23rd. Annual Report and Review 1996 (Lisbon, 1997), pp. 25-53.