segunda-feira, agosto 06, 2012

Em Busca do Oceano Perdido no Planeta Vermelho




Primeira foto (roda traseira e zona de pouso) captada pelas câmaras de navegação da Curiosity em Marte
(NASA/Jet Propulsion Laboratory-Caltech)

 - «Touchdown confirmed»!
Por volta das 06:32, a Sala de Controlo do Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena exultou. Confirmou-se mais um feito espacial. 

Bem longe da Califórnia, a uns 225 milhões de quilómetros da Terra, algures no interior da Cratera de Gale, aterrou - ou melhor, amartou - o robô-explorador Curiosity, o maior e mais complexo veículo de exploração planetária jamais concebido pelos terráqueos. Apesar de ser a terceira viatura deste género enviado ao planeta vermelho, nada tem de rotineiro, sobretudo tendo em conta que cerca de dois terços de todas as missões enviadas a Marte falharam.



Após mais de 8 meses de viagem espacial, iniciam-se hoje pelo menos dois anos de missão vital no quarto planeta a contar do Sol. O laboratório motorizado irá avaliar potenciais vestígios de vida microbiana, mapear concentrações aquíferas na superficie de Marte, medir e identificar fontes de radiação locais. Dados valiosos antecipando a futura exploração humana. 




 Simulações do oceano primordial marciano, hoje inexistente

Vestígios concretos da existência de água foram confirmados no final de 2011 pelo veículo Opportunity e de um oceano marciano primordial no início deste ano pela sonda Mars Express (que também ajudou às manobras de aproximação da Curiosity) da Agência Espacial Europeia. O Oceano marciano - que ainda não possui nome - terá contido o equivalente a um décimo de toda a água dos oceanos terrestres. 

Segunda foto enviada pela Curiosity (sombra do robô no solo marciano) NASA/Jet Propulsion Laboratory-Caltech
As primeiras imagens captadas pelo veículo revelam o sucesso da aterragem. A sombra marciana da Curiosity mostra-nos o terreno plano à sua volta. Os clichés mais espectaculares surgirão dentro de dias, quando as câmaras de alta definição forem accionadas. A partir de agora, a NASA disponibiliza aqui o álbum de imagens marcianas da Curiosity. 

Estas animações virtuais dão-nos uma ideia da chegada do veículo a Marte:




A Google também possui um mapa digital interactivo do planeta vermelho para caminheiros extra-terrestres.

Mais notícias actualizadas e em directo no Canal da NASA.

Com este sucesso prepara-se a chegada de um novo Armstrong (que festejou ontem 81 anos), digno sucessor de um Bartolomeu Dias ou de Vasco da Gama. Mostrar "novos mundos ao mundo", como escreveu Camões há quase cinco séculos e meio, nunca foi tão actual. Desta vez explorando "novos" oceanos num outro planeta...

terça-feira, julho 31, 2012

O «Inafundável» Titânico Revisitado

Lá no fundo



...a 3.700 metros sob as frias águas do Atlântico Norte  repousam os testemunhos silenciosos de um dos maiores desastres marítimos do século XX. Naufragado em 1912 na fatídica viagem inaugural e redescoberto apenas em 1985, o "insubmersível" Titanic mantém uma aura de mistério.



Na celebração dos 100 anos deste acidente em Abril [nota: este blog não segue o moderno (des)acordo ortográphico] passado, ocorreram várias iniciativas que nos proporcionaram novos olhares sobre o histórico naufrágio.~
Localização das duas secções principais dos destroços - vante e ré - distanciadas 600 metros entre si
As mais recentes - e magníficas - fotos dos destroços foram publicadas na revista National Geographic revelando o estado actual do outrora grandioso navio de cruzeiro.

As fotos feitas em Agosto e Setembro de 2010 pela Woods Hole Oceanographic Institution com tecnologia sofisticada captaram as imagens mais completas e definidas jamais vistas do navio. Foram necessárias mais de 10.000 imagens de alta resolução corrigidas por sonar realizadas pela RMS Titanic Inc., empresa actualmente detentora do Titanic, para compor estes inéditos mosaicos fantasmagóricos.





No documentário do Canal História, Titanic at 100: Mystery solved, o navio foi literalmente erguido à superfície para satisfação da curiosidade dos terráqueos . Novas interpretações do desastre foram divulgadas e apresentou-se o primeiro mapa detalhado do local de naufrágio e da reconstituição actualizada dos últimos momentos do navio.



Viagem Virtual às Profundezas

Por seu lado, a Google preparou uma visita interactiva ao alcance de todos, utilizando um modelo 3D dos destroços criado com as imagens recolhidas pela National Geographic Society, que permite explorar as diferentes secções do navio.

Basta activar a camada 3D do Google Earth (aplicação Ocean), descarregar  este ficheiro da Google e digitar “Titanic” no campo de pesquisa.  




Para os mais curiosos, aqui ficam as coordenadas GPS da proa do Titanic: 41º43'57" N, 49º56'49" W.

Mais detalhes sobre esta e outras excursões submersas virtuais aqui:


As digressões submarinas "googleanas" abrangem outros naufrágios históricos, como o couraçado alemão Bismarck afundado em 1941 após uma perseguição épica pela Royal Navy. 

Bons mergulhos.

terça-feira, julho 24, 2012

Do Massivo Mundo Líquido

Tédio em Terra? Maravilhe-se no Mar.


Imaginar-se na prancha do havaiano Garrett McNamara em Novembro de 2011 na Praia do Norte, Nazaré, com a monumentalidade com que surfou na ZON North Canyon 2011 a maior onda navegada do Mundo, é esmagador.



Perto de 24 metros (um prédio de 5 andares) convertidos num momento marítimo icónico. Confirmado e documentado pelos entendidos em big waves  do Billabong XXL Global Big Wave Awards, e aprovado no Livro do Guinness World Records, o triunfo foi dedicado pelo norte-americano à vila marítima da Nazaré.

A histórica vila de pescadores, encravada entre o massivo promontório do Sítio e um vertiginoso vale submarino (o mais profundo da Europa) que atinge os 5.000 metros, proporciona ondulação gigantesca consistente para torná-la num dos melhores spots mundiais do surf de "grandes ondas".


Efémero momento, temporariamente erguidos numa muralha de água sobre o turbilhão em que nascemos e a que estamos condenados. Recobrados os sentidos, resta-nos admirar as imagens impressivas que a Natureza nos oferece sem condições. Nada melhor do que desfrutar de uma das maiores energias deste planeta ainda em condições.

segunda-feira, junho 18, 2012

Amazoneando


1886, Amazónia. Início de Verão no imenso Brasil tropical, sob o governo imperial de Sua Majestade D. Pedro II.



O local: o “encontro das águas” poderosas do Rio Solimões – que daí em diante ganha nome de Amazonas -e do Rio Negro, o seu maior afluente.


Não, não é um livro que demora anos a ler, nem sofre de um exército de notas. É para a juventude. O acaso fez com que esta história me parasse na mesa de leitura e aqui fica o exemplo: divulgar História não tem idade. Sobretudo, bem orientada pela bússola da autora de escrita viva, envolvente e informativa para todos.

Bernardo de Bourbon, protagonista imaginário da aventura, tenta descobrir quem são as misteriosas Amazonas na infindável selva e qual o tesouro que as lendárias mulheres guerreiras tão ciosamente guardam.



Rodeados pela força serena da natureza, uns quilómetros acima da confluência do Atlântico com o rio mais extenso do planeta. Entre a luminosa atmosfera húmida e a densa vegetação exuberante, conhecemos as tribos nativas e os seus rituais esotéricos. O leitor percorre a buliçosa e colorida Manaus colonial, passeia de barco – tal como a autora - pelos rios Negro e Amazonas e desfruta o exótico pequeno-almoço (café da manhã) de ricos sabores.


Seguem-se os passos de personagens históricos, como o botânico e etnógrafo João Barbosa Rodrigues – que transcreveu a lenda Tupi da Senhora da água, Iara ou Yara, a mais bela mulher das tribos que habitavam as margens do Amazonas, transformada em sereia pela maldade dos homens, a quem passou a atormentar, arrastando-os para as profundezas aquáticas - na sua missão científica que o levará a dirigir o primeiro Jardim Botânico de Manaus e a dirigir em seguida a mesma instituição no Rio de Janeiro (actualmente um dos ex-libris da Cidade Maravilhosa ). Rendido ao mito imemorial das amazonas, dedicou-lhes um estudo onde as descreve como "Virgens Sagradas" (entre outras obras históricas de interesse).

Gravura adaptada da obra pioneira de André Thevet, Singularités de la France Antarctique (1557) [tradução moderna aqui],
mostrando "como as amazonas tratam aqueles que cativam"
 Fonte inesgotável de utopias e fascínios, o El Dorado perdido na selva que dominou tantas imaginações europeias no Renascimento e arrastou tantos exploradores para a perdição. Não por acaso, a lenda das amazonas foi frequentemente associada ao mito do Eldorado, em cujas vizinhanças elas supostamente viveriam.


Lendas, costumes indígenas e curiosidades várias na época da abolição da escravatura transmitidas pela hábil narradora, que nos convida a reviver esse final de Oitocentos. Numa palavra: refrescante.


Eu cada vez mais me lembro de que nós já fomos isto tudo, misto de mar, mito e maravilha.
É bom lembrar. De preferência com o pé na água, naquelas e noutras terras quentes temperadas pelos imensos mares que nos aproximaram.

“Bernardo e o Enigma das Amazonas”.
Da Flávia Reis, publicado pela Editora Callis (São Paulo)
Obra incluída na selecção da Feira Literária Internacional de Paraty (Rio de Janeiro)

segunda-feira, setembro 19, 2011

Angra do Heroísmo, achados e perdidos





Treze anos depois do seu salvamento improvisado, o segundo maior achado de arqueologia naval do século XVI-início do século XVII no Atlântico (logo a seguir a Red Bay, no Canadá) jaz, abandonado, no sopé do Monte Brasil, arrumado a um canto da deslumbrante baía de Angra do Heroísmo.


Seguramente, o estaleiro arqueológico subaquático mais desperdiçado do Mundo ocidental.

domingo, julho 05, 2009

Mar, Mitos e Máquinas I

A Arca de Noé

Gravura da Bíblia de Nuremberga (edição de 1570)

Arca de Noé nos vitrais da igreja de Saint Étienne du Mont, c.1600

O episódio bíblico narrado no Génesis descreve como Deus castigou a maldade do Homem destruindo toda a sua criação. Ou melhor, quase toda. Apenas Noé e a sua família, graciosamente poupados à ira divina, obtiveram o tempo necessário à recolha de um casal de espécimens de cada animal da Terra a bordo da fabulosa Arca flutuante construída entretanto pelo humilde artesão. Assim teriam sobrevivido ao Grande Dilúvio para repovoarem o planeta.


“Forma exterior arcae Noë ex descriptione Mosis”, s.d. (1590-1650?)
Biblioteca Nacional de Portugal

O mito fundador do Dilúvio comum às principais religiões suscitou no mundo ocidental uma singular busca de interpretações, de modelos construtivos e da própria localização da mítica nave.

Gravura cosmográfica de nova casa do Zodíaco (Arca de Noé), inserta na obra de Julius Schiller, Coelum Stellatum Christianum (Augsburg, 1627).

Fonte inesgotável de inspiração artística, a Arca construída por Noé deu lugar inclusivamente uma tentativa de renomeação de uma constelação do zodíaco num atlas seiscentista dedicado ao Céu Estrelado Cristão.


Provavelmente a mais famosa representação do episódio encontra-se retratada na Capela Sistina, no fresco monumental de Michel’Angelo Buonarroti datado de 1509.

Também motivou diversas composições artísticas, como estas duas colecções de gravuras quinhentistas holandesas

Em 1609, Peter Jansen, um obscuro carpinteiro naval holandês, construiu aquilo que acreditava ser uma autêntica réplica da Arca através das indicações contidas na Bíblia.



A reconstrução da arca bíblica ocupou mentes ociosas, tais como a de John Wilkins, Bispo de Chester. Recorrendo a cálculos improváveis, este erudito religioso asseverou a capacidade da Arca em transportar a quantidade desmedida de animais encomendada a Noé. Fez até prova disso no seu livro Essay Towards a Real Character, and a Philosophical Language (London, 1668) , onde se inclui mais uma representação da mítica embarcação, embora mais à maneira de estábulo flutuante.



Porém, em questão de escala, ninguém superou os incansáveis chineses, que terminaram muito recentemente uma réplica megalómana (e comercial, pois alberga um hotel de luxo) nos arredores de Hong Kong.

Para saber mais acerca das interpretações da arca de Noé ao longo da História, consultem-se uma e outra cronologia concisas e bem ilustradas.

terça-feira, junho 09, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (IV)

Desfecho e Consequências


Anthony Wingfield, A trve coppie of a discourse written by a gentleman, employed in the late voyage of Spaine and Portingale... (London, 1589). Exemplar na Kraus Collection of Sir Francis Drake, actualmente na Biblioteca do Congresso (Washington DC). Outro relato, em latim (na mesma colecção): Ephemeris expeditionis Norreysij & Draki in Lusitaniam (London, 1589)

Em Inglaterra, a Rainha Isabel não poupou Drake pelo fracasso da expedição, sobretudo pela incapacidade em forçar a barra do Tejo para se reunir às tropas de Norris. Em resultado, o famoso corsário e almirante inglês cumpriu um desterro da Corte isabelina - e dos mares - durante 6 longos anos. Drake comprometera o resultado da grande armada inglesa e mostrara indisciplina face às ordens da Rainha no cumprimento dos objectivos. Ele e Norris foram incapazes de se justificar perante o Conselho Privado da Rainha das acusações de desvio dos objectivos previstos em proveito próprio. A destruição dos navios sobreviventes da "Invencível" Armada refugiados sobretudo no porto de Santander não foi cumprida.

A expedição de 1589 poderia ter sido decisiva na Guerra Anglo-Espanhola. A reconquista de Lisboa teria obrigado Filipe II a desviar tropas de outras frentes de guerra e poderia ter levado À negociação de tréguas segundo condições inglesas. De posse desta importante base naval e centro marítimo, a Inglaterra beneficiaria da colaboração das forças navais portuguesas garantindo, a curto prazo, o domínio dos mares e ameaçando seriamente os circuitos comerciais transatlânticos da Monarquia Hispânica. Contudo, a falta de preparação das tropas e de material, aliados à dissociação de interesses da Coroa e dos particulares que ajudaram a financiar a expedição a Portugal, ficaram patentes os limites de acção do emergente poder naval inglês.

Para o fracassso contribuiram, para além das negligências individuais dos comandantes, as crónicas insuficiências logísticas comuns às armadas ingleses desse período. Criara-se um equilíbrio de forças momentâneo no Atlântico, pois a Espanha ainda recuperava do fracasso da "Invencível" Armada de 1588 e reconstruia as suas forças navais. A guerra no mar contra Filipe II recrudesceria na década seguinte sobretudo com recurso aos navios corsários navegando sob bandeira de D. António contra a marinha mercante ibérica. Mas o receio inglês de novas grandes armadas espanholas continuou tão vivo como em 1588.

A própria questão do fortíssimo antagonismo religioso entre Católicos e Protestantes havia sido correctamente previsto pelo líder espiritual da Revolta dos Países Baixos (Philippe Marnix de Sainte-Aldegonde), ao recusar o convite de D. António para integrar a expedição e estabelecer a liberdade de culto em Portugal, invocando as inevitáveis animosidades e fortes desconfianças dos católicos portugueses.



Isabel I de Inglaterra e Filipe II de Espanha (I de Portugal) protagonizaram uma escalada militar que culminou na Guerra Anglo-Espanhola. As armadas espanhola e inglesa defrontaram-se entre 1585 até à morte de ambos os monarcas. Embora a "Invencível" (ou Grande) Armada de 1588 tenha sofrido um sério revés, o poder naval espanhol conseguiu recuperar e reformar-se, prolongando a guerra no mar até ao início de Seiscentos. Pintura da rainha inglesa atribuída a George Gower, 1588 (National Portrait Gallery, Londres) e do monarca espanhol por Alonso Sánchez Coello, c.1570 (Pollok House, Glasgow)

Filipe II de Espanha (D. Filipe I de Portugal) manteve, através do Vice-Rei Alberto de Áustria, o controle firme de Lisboa e do território português. As grandes armadas espanholas mantiveram a Inglaterra em alerta mesmo após a derrota da "Invencível" Armada de 1588. O seu principal adversário português, D. António Prior do Crato perdeu todas as batalhas contra as forças espanholas, desde Alcântara (1580) até até à derradeira batalha de Lisboa (1589).

Numa das suas derradeiras cartas à Rainha Isabel I, D. António prometia não desistir de regressar a Portugal e procurou auxílio junto do Rei Henrique IV de França, mas sem sucesso pois não passou da fase de planeamento. A 26 de Agosto de 1595, dois dias antes da partida última expedição de Drake, D. António morreu em Paris na miséria. O seu conhecido e apoiante já idoso e apelidado pelos espanhóis de "Francisco Draque el viejo" morreria pouco tempo depois, em Janeiro de 1596 a bordo do seu navio no Mar das Caraíbas, onde iniciara a sua longa luta contra Espanha. Finalmente, no ano seguinte, o General Sir John Norris, último dos três protagonistas da expedição de 1589, já enfraquecido pela doença no regresso de Portugal, sucumbiu às velhas feridas de guerra na Irlanda.


Amigos de Peniche?

A história da expedição inglesa de 1589 padece ainda hoje de uma herança enganosa e redutora. Segundo alguns autores do séc. XX, a expressão popular amigos de Peniche deve a sua origem à falta de apoio dos ingleses no regresso de D. António a Portugal, numa acepção pejorativa de falsos amigos apenas interessados em saquear. Contudo, apesar de os ingleses terem retirado sem conseguirem de facto ajudar a causa de D. António, a origem da expressão não terá sido, até prova documental em contrário, contemporânea da expedição ou sequer relativa à mesma. Mais provavelmente, terá que ver com o desembarque das forças liberais em 1833 (aproveitando a fuga da guarnição do partido absolutista), consumado com actos de vandalismo e agressões a populares, atingindo sobretudo as igrejas, mutilando imagens e altares.


Fontes Publicadas

HAKLUYT, Richard, The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Navigations of the English Nation, London: The Hakluyt Society, vol. VII (London: 1907).

LIMA, Durval Pires de, "O ataque dos ingleses a Lisboa em 1589 contado por uma testemunha...", in Lisboa e seu Termo: Estudos e Documentos, Associação dos Arqueólogos Portugueses, vol. I (Lisboa: 1948).

Memorial de Pero Roiz Soares (1565-1628), publicado por M. Lopes de Almeida, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1963.

WERNHAM, Richard B. (ed.), The Expedition of Sir John Norris and Sir Francis Drake to Spain and Portugal in 1589, Aldershot: 1988.


Estudos Principais

CAEIRO, Francisco, O Arquiduque Alberto de Áustria, Vice-Rei e Inquisidor-mor de Portugal, Cardeal Legado do Papa, Governador e depois Soberano dos Países Baixos, Lisboa: edição do autor, 1961.

CASTRO, José de, O Prior do Crato, Lisboa, 1942.

MacCAFFREY, Wallace T., Elizabeth I: War and Politics, 1588-1603, Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1994 (2.ª ed.).

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, col. Batalhas de Portugal - 19, Lisboa: Tribuna da História, 2005.

VAZ, João Pedro e FONSECA, Luís Falcão da, "Sir Francis Drake and the «Poor King» D. António: the Portugal Voyage of 1589", in The British Historical Society of Portugal 23rd. Annual Report and Review 1996 (Lisbon, 1997), pp. 25-53.

domingo, março 08, 2009

A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589 (III)

Parte III - Derrota e Desilusão

As últimas tropas inglesas que formavam a retaguarda em retirada de Lisboa, em que seguiu D. Manuel de Portugal (filho de D. António) e a cavalaria inglesa partiram na madrugada de 5 de Junho, quando já a vanguarda onde se encontrava D. António passava por Alcântara, cenário da derrota de 1580 frente às tropas espanholas que levou à tomada de Lisboa. A bom passo e por terrenos agrestes, fora dos caminhos mais percorridos devido ao fogo das galés espanholas que os bombardearam novamente, as forças inglesas dirigiram-se para Cascais onde chegaram na mesma noite. Desconfiado, o Capitão-geral da gente de guerra Conde de Fuentes atrasou a saída das tropas defensoras de Lisboa receando uma emboscada., mas envia umas companhias soltas de arcabuzeiros a cavalo e de ginetes (cavalaria ligeira) em perseguição fazendo algumas vítimas e mantendo a vigilância.



D. Manuel de Portugal, filho de D. António Prior do Crato, integrou a expedição inglesa de 1589 e mais tarde, com o seu irmão D. Cristóvão acompanharam a armada inglesa liderada pelo Conde de Essex contra Cádiz em 1596.

Entretanto, em Lisboa, os pedidos insistentes do Conde de Vila da Horta para sair com a cavalaria portuguesa foram ignorados pelo Conde de Fuentes, que os deixou preparados na praça do Rossio sem, contudo, avisá-los da sua saída. Os desentendimentos com o Conde de Fuentes não impediram o general português de se juntar a ele pouco depois na perseguição aos ingleses e a D. António até Oeiras, mas atingem Cascais já tarde no dia 7, com o inimigo entrincheirado na vila e no Mosteiro de Santo António, conseguindo apenas interceptar os retardatários no caminho e nas quintas dos arredores. No dia seguinte o Conde de Fuentes regressou a Lisboa, não sem antes recusar novo desafio pessoal do Conde de Essex para um combate organizado entre as forças adversárias, invocando a impossibilidade de aceitar batalha sem ordem do Rei.


As tropas espanholas asseguraram a defesa de Lisboa adoptando uma táctica passiva com um mínimo de confrontos, deixando os invasores ingleses enfraquecer-se devido às próprias limitações logísticas e à fraca qualidade do contingente militar. (painel de azulejos do Palácio dos Marqueses de Bazán, em Ciudad Real)

Nos dias seguintes, os oficiais espanhóis discutem em Lisboa sobre a melhor maneira de destruir a armada inglesa, enquanto se abrem trincheiras ao longo dos possíveis desembarcadouros na margem Norte do Tejo, e os reforços se acumulam na capital, de entre os quais sobressaía o Duque de Bragança D. Teodósio e o seu irmão à frene de uma hoste de 1.000 homens de pé e 200 cavaleiros. Por seu lado, os ingleses preparam em Cascais o reembarque das tropas, após se terem recomposto com o gado recolhido nas redondezas da vila e de saquearem Colares e Sintra, de onde trouxeram armas e dinheiro. A armada de Sir Francis Drake apresou ainda uma imprudente frota de 60 navios hanseáticos carregados de cereais destinados a Lisboa, mas de pouco valeu a carga, pois a cavalaria portuguesa destruíra as mós dos moínhos em Oeiras e em Barcarena.

Embora ao longo do caminho para Lisboa as guarnições de Peniche, Torres Vedras e Cascais se tenham entregue praticamente sem resistência, as forças inglesas não foram suficientes nem para entrar na capital, nem para obter apoio popular à desejada sublevação portuguesa contra as autoridades espanholas. Em apenas 3 semanas de operações, as hostes inglesas haviam sofrido perto de 4.000 baixas devido a deserções, doença e combates, desde o cerco da Coruña. Confrontado com a sólida defesa organizada pelas forças militares espanholas, Drake saqueou a vila de Cascais e incendiou o castelo, partindo no dia 18 de Junho rumo ao Cabo de São Vicente com 8.500 sobreviventes.

Porém, na viagem de regresso da costa algarvia uma semana depois, a armada inglesa foi interceptada depois de temporariamente imbolizada por uma calmaria ao largo do Cabo Espichel pelas 15 galés espanholas estacionadas no Tejo comandadas pelo Adelantado Mayor de Castela D. Martín de Padilla Manrique (futuro Capitão-geral da Armada do Mar Oceano) e, numa acção inédita na carreira de Drake, este perde 5 navios em combate (3 afundados e 2 incendiados) que durou 3 horas com as forças defensoras na perseguição movida ao largo da costa portuguesa.

Entretanto, alguns navios ingleses enviados a recolher as tropas deixadas em Peniche são recebidos com tiros de artilharia da guarnição espanhola. Descobrem então que o capitão inglês a cujas ordens ficaram os últimos ingleses já havia partido para Inglaterra, abandonando 300 soldados à sua sorte.


Apesar da superioridade dos navios ingleses de alto-bordo sob Drake, as fortes defesas da barra do Tejo dissuadiram
o avanço da armada inglesa até Lisboa, suscitando duras críticas contra Drake

Pouco depois, o mau tempo obrigou ao cancelamento do desembarque inglês nas ilhas dos Açores, último objectivo da expedição. Poucas semanas depois, no início de Julho, as cobiçadas naus da Índia ancoraram na Baía de Angra, na ilha Terceira, onde aguardaram em segurança o regresso a Lisboa. Finalmente, a armada de Drake pôs-se em fuga e abandonou o litoral português rumo a Inglaterra, não sem antes saquear e incendiar Vigo, na Galiza. A 10 de Junho, Drake e D. António aportaram em Plymouth, trazendo os navios em mau estado e as tropas em situação miserável. Poucos dias depois estalaram motins e distúrbios entre os soldados que reclamaram soldos em atraso. Em Londres, o Secretário de Estado Walsingham escreveu a D. António, aconselhando-o prudentemente a partir para França pois caíra em desfavor na Corte inglesa.


Abadia de Buckland (Devon, Sul de Inglaterra), lar de dois grandes corsários ingleses, Sir Richard Grenville e Sir Francis Drake (que a adquiriu ao primeiro), foi lugar de reunião entre o pretendente ao trono português no exílio D. António e o próprio Drake na preparação das iniciativas contra Filipe II de Espanha.

Em Lisboa, celebrou-se a 20 de Julho uma procissão de acção de graças entre a Sé e São Francisco, na qual participaram todas as ordens religiosas, confrarias e gente "principal" e se transportou uma imagem de Nossa Senhora da Guia mutilada pelos ingleses, proveniente de uma ermida de Cascais. Seis semanas depois, a população de Roma assistiu ao regozijo do Papa Sixto-Quinto com a boa nova da retirada da expedição inglesa de Portugal, compondo pessoalmente um salmo e várias preces e liderando 36 cardeais e toda a Corte Pontifícia em mais uma procissão até à igreja de Sant'Antonio dei Portoghesi.