
A 18 de Abril de 1589, dez meses após a derrota da “Invencível Armada” que pretendera invadir Inglaterra, o célebre corsário e almirante inglês Sir Francis Drake partiu do porto de Plymouth rumo à Península Ibérica. O galeão a bordo do qual seguia denominava-se apropriadamente Revenge. Conjuntamente chefiada por Sir Francis Drake e Sir John Norris, oficial veterano da Guerra dos Países Baixos (indigitados, respectivamente, comandante da armada e do exército), esta foi uma das maiores expedições navais do século XVI.
A bordo da armada seguia a pequena corte portuguesa no exílio desde 1581: D. António, Prior do Crato, pretendente ao trono português, o seu filho D. Manuel de Portugal e mais de 70 partidários portugueses, juntamente com um contingente anglo-holandês de 12.400 soldados. A Inglaterra passava à ofensiva pelo domínio do Atlântico.
D. António, efémero rei de Portugal, ou "pobre rei" nas palavras dos seus aliados ingleses, liderou a resistência portuguesa contra Filipe II e a Monarquia Hispânica. Exilado após a invasão espanhola de 1580, conseguiu regressar a Portugal em 1589, de onde partiu novamente derrotado. A sua pretensão à coroa portuguesa baseava-se no pressuposto da sucessão electiva e não hereditária. Para tal, promoveu uma intensa edição de panfletos em várias línguas publicitando os seus argumentos contra Filipe II. O segundo retrato é o único genuíno, realizado em vida de D. António pelo holandês Jodocus Hondius, que realizou igualmente um retrato gravado de Sir Francis Drake (José Teixeira, Genealogia Regum Portugalliae, 1592; original na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro)
D. António, filho ilegítimo do infante D. Luís (filho do rei D. Manuel), gozara de um reinado efémero: aclamado pelo povo e principais cidades do reino nas vésperas da invasão espanhola em Junho de 1580, o Prior do Crato resistira com o apoio do povo e do baixo clero, mas acabara derrotado dois meses depois na batalha de Alcântara. Não obstante a fácil conquista de Portugal, D. António manteve-se como uma das maiores preocupações do monarca espanhol.
Tencionava repetir-se o êxito dos ataques-surpresa executados com mestria por Drake a Cádiz e Sagres (1587), mas em maior escala e com o objectivo prioritário de destruir as unidades sobreviventes da “Invencível Armada” que haviam regressado ao norte de Espanha. Cedo se estabeleceram dois novos objectivos: repôr D. António no trono português - abrindo uma nova frente contra Espanha - e interceptar a “Frota da Prata” espanhola ao largo dos Açores, interrompendo o fluxo vital de metais preciosos para Espanha e assegurando uma base naval estratégica.
Dada a penúria das finanças isabelinas, tal como nas expedições anteriores de Drake, investidores privados proporcionaram o grosso da armada, constituída por navios de transporte armados. O investimento seria amortizado pela captura da frota das Índias e o livre acesso aos portos em Portugal.
Assalto à Coruña: primeiras dificuldades
Ventos contrários e problemas logísticos atrasaram a armada em seis semanas, criando despesas extraordinárias. Após a partida, a 28 de Abril, desertaram ainda 25 navios holandeses levando a bordo 2.000 homens. Alcançada a Coruña em 4 de Maio, as forças inglesas alcançam o primeiro objectivo da expedição, com o ataque a dois galeões regressados da fatídica "Invencível" Armada no ano anterior, que se encontravam em reparações: eram eles o São João, navio-almirante da esquadra da Coroa de Portugal e o São Bernardo, integrante da mesma. Enquanto a tripulação do primeiro incendiou o próprio navio para evitar que caísse em mãos inimigas, o segundo escapou, não sem antes os ingleses terem capturado a artilharia que se encontrava desembarcada.
Após um desembarque bem sucedido, mas em clara desobediência às ordens da Rainha, os ingleses apenas conseguem tomar a cidade baixa, onde se instalam D. António e o seu filho com as tropas de Isabel I. O alarme soou por toda a Galiza. Na vizinha cidade de Santiago de Compostela, o Arcebispo apelou à defesa da catedral para que o "Santo corpo do Apóstolo (...) não seja profanado por estes bárbaors hereges". A disciplina das tropas inglesas, maioritariamente recrutas inexperientes, provou ser tarefa difícil, sobretudo após a descoberta das adegas locais. Surgiram também os primeiros focos de epidemia provocando muitas mortes por entre os invasores.
Finalmente, depois de confrontados com uma forte resistência popular e desprovidos de equipamentos de cerco, os ingleses reembarcaram no dia 7 de Maio, deixando a cidade baixa saqueada e em chamas. O aviso do desembarque na Coruña tinha sido recebido em Lisboa a tempo de se reforçarem as defesas da capital portuguesa. Era chegado o momento da costa portuguesa se confrontar com o mais famoso corsário da sua época trazendo nos seus navios o rei exilado D. António acompanhado dos "piratas hereges".




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