sexta-feira, outubro 10, 2003

Os Livros e o fascínio do Mar

O Mar também tem os seus autores. Na verdade, a História das grandes navegações de exploração e comércio deixou-nos um enorme legado de conhecimento, lenda e tragédia.

Ao longo dos séculos, alguns autores sublimaram episódios verídicos e personagens de ficção em inúmeras obras literárias. O fascínio da aventura humana nos mares e oceanos traduziu-se numa literatura de carácter marítimo, desde o séc. VIII a.C., nos escritos de Homero, até ao séc. XIX com Herman Melville e até ao presente, na escrita galardoada do espanhol Arturo Pérez-Reverte. Embora construídos em enredos de ficção, todos estes livros sobre o mar têm ainda a particularidade de se basearem em personagens e eventos históricos.

Mas foi na Península Ibérica e, mais precisamente, em Portugal, que se criou um autêntico género literário específico. Falamos da literatura de viagens.

A conhecida História Trágico-Marítima (volumes I e II disponíveis online; antologia de textos do século XVI reunida pelo erudito setecentista Bernardo Gomes de Brito e publicada pela primeira vez entre 1735 e 1736), continua a ser um inesgotável manancial para estudos de natureza antropológico-cultural, histórica, arqueológica e literária. Pelo facto de ser escrita em prosa e pelo seu caráter documentário, mais que a própria obra de Camões, constitui o melhor testemunho de uma época rica em aventuras e perigos, fornecendo ao leitor importantes informações sobre as técnicas de navegação, as rotas marítimas, os trabalhos náuticos e os meios de sobrevivência em terras hostis. A compilação é constituída por treze relatos que, à excepção da "Descrição da cidade de Columbo" pelo Padre jesuíta Manuel Barradas e um curioso documento sobre a fauna e a flora do Ceilão, contemplam tragédias marítimas, das quais dez provocadas por incidentes naturais e duas pela ação de corsários.

Uma demonstração do visível interesse que esta literatura realista e dramática do período final do Renascimento tem suscitado, é patente no elevado número de trabalhos dispersos por várias revistas e livros publicados nos últimos tempos e nas diversas teses académicas de Mestrado e Doutoramento apresentadas nos últimos anos em universidades portuguesas, especificamente sobre a Literatura de Naufrágios e História dos Descobrimentos e ainda nas sucessivas edições da História Trágico-Marítima ou de alguns naufrágios individualmente, com destaque para o inesquecível Naufrágio e Lastimoso Sucesso da Perdição de Manuel de Sousa de Sepúlveda, publicado pela primeira vez em 1555.

 

O reverso da medalha dos Descobrimentos


A História Trágico-Marítima é uma colectânea de relatos de naufrágios de algumas naus portuguesas na rota da Índia. Como o próprio título indicia, encerra a parte trágica da saga das navegações de Descobrimento e Expansão. O naufrágio de Sepúlveda, capitão veterano das andanças na Índia, é o primeiro relato e o mais característico da colectânea. O autor, de que desconhecemos o nome, parece ter-se servido das palavras de um Álvaro Fernandes, sobrevivente do galeão, para escrever a história, tal como diz no prólogo. O autor descreve os acontecimentos a bordo, demonstrando profundo conhecimento dos navios, das terras exóticas e do mar.

Esta pequena tragédia sintetiza as condições típicas da vulnerabilidade da navegação naquela época. Tal como muitos outros navios, o «galeão grande» São João estava demasiado velho, de acordo com o autor do Relato, que acrescenta: «tardaram muito em ver o cabo por causa das ruins velas que traziam, que foi uma das causas, a principal, de seu perdimento»; «por o leme ser podre, um mar que lhe então deu lho quebrou pelo meio e levou-lhe logo ametade». Tudo contribuía para a sua perda: a degradação do casco e das velas, certa ignorância técnica e a imprevidência humana, a cobiça de lucros, o abarrotar de carga e a tempestade fatal.
A intensidade da luta do frágil navio de madeira com as insuperáveis e imprevisíveis forças da Natureza deixou os portugueses à deriva numa casca de noz destroçada e sem velas sobre um mar de tormenta ao largo da costa do Natal. Num instante, após o inevitável naufrágio, os sobreviventes são arrojados à praia e é na desolação do acampamento improvisado na costa índica da África do Sul onde a emoção atinge o auge com um episódio insólito de grande intensidade: a morte de um personagem feminino, a mulher do capitão Sepúlveda. Segundo o autor: «vendo-se D. Leonor despida, lançou-se logo no chão, e cobriu-se toda com os seus cabelhos, que eram muito compridos, fazendo uma cova na areia, onde se meteu até à cintura, sem mais se erguer dali».

A dramática luta pela sobrevivência numa latitude longínqua, em território desconhecido e os combates travados com as hostis tribos Zulus preenchem as páginas do relato.
Nem Luís de Camões ficou indiferente ao episódio, imortalizando-o em 1572, pela boca do terrível Adamastor n’Os Lusíadas (Canto V, est. 46-47). A triste história de Sepúlveda ultrapassou mesmo as fronteiras nacionais, inspirando outros autores, na escrita poética, ficcional ou dramatúrgica, com destaque para Lope de Vega e Tirso de Molina, entre outros.

Em Espanha, o público leitor já fora brindado com um livro que fez história pelo mesmo motivo. A conhecida descrição do naufrágio (Naufragio de Alvar Núñez Cabeza de Vaca y relación a la jornada que hizo a la Florida con el adelantado Pánfilo de Narváez, mais conhecida apenas por Naufragios [texto em pdf]) sofrido por Alvar Núñez Cabeza de Vaca, publicado em 1555, narra o desastre marítimo da expedição naval do capitão Pánfilo de Narváez na costa da Florida em 1527. Os náufragos embrenharam-se terra adentro pela costa do Texas actual, percorrendo a costa Norte do Golfo do México.

A tragédia surpreende de novo os sobreviventes quando a embarcação improvisada em que seguiam naufraga próximo do rio Mississipi e apenas 4 pessoas, incluindo o autor, conseguem salvar-se a custo. A partir daí, Durante um longo ano percorreram o Sul do Texas até se aproximarem do território da Nova Espanha. Já no fim das usa forças (e com uma história incrível para contar) foram finalmente encontrados por tropas espanholas e enviados à cidade do México.

Trata-se também de um dos primeiros textos sobre a exploração geográfica da América e o primeiro relato de um europeu no Novo Mundo ainda antes da radical alteração introduzida pelas futuras vagas de colonos. As observações de Cabeza de Vaca sobre as práticas culturais e religiosas indígenas e as suas descrições geográficas constituem, de facto, uma fonte de conhecimento de riqueza incomparável para os antropólogos, biólogos e historiadores da actualidade.

Tal como Giulia Lanciani (Os Relatos de Naufrágios na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI e XVII, 1979), podemos concluir que «os relatos de naufrágios representam o reverso da medalha das exaltantes crónicas oficiais de vitórias de conquistas, de triunfos em terras longínquas e entre gentes exóticas».

Verdadeiros best-sellers, tanto Gomes de Brito como Cabeza de Vaca conheceram várias reedições ainda nos séculos XVI e seguintes e conheceram assinalável sucesso literário, incorporando na História e Cultura ibéricas um conjunto de elementos-chave que se transformaram em ilustração paradigmática por excelência do lado trágico e emocional da epopeia das grandes navegações.

O Mar tornara-se na grande estrada e elo de ligação entre civilizações distantes, até então desconhecidas. Os relatos de inúmeros marítimos deram conta da aventura que então se iniciava.

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